01 Jun 2018 630
Fernanda Meneguetti Devorável
#experiencias #riodejaneiro #roteiros

120 horas no Rio de Janeiro : Cinco dias intensos que passam voando na Cidade Maravilhosa

"Cidade purgatório da beleza e do caos”. A estrofe famosa e até hoje entoada em muita festa é do comecinho dos anos 1990. Pertence a "Rio 40 Graus”, de Fernanda Abreu, um clássico pop da música brasileira e uma verdade verdadeira sobre a cidade. Durante décadas, o Rio de Janeiro evocou uma terra fantasiosa de biquínis, futebol e carnaval entre o mar e a confusão dos morros, sob proteção do Cristo Redentor, a escultura com uma das melhores – senão a melhor – vista panorâmica do planeta.

Os últimos anos, porém, deram ao Rio uma vibe mais cosmopolita: a remodelação da área portuária, novos museus e novos restaurantes sob o festivo sol de sempre. Aqui dicas para aproveitar o melhor do novo e do velho, para ser feliz com a beleza e até com o caos.

Sexta-feira

9h00 . Você chegou ou acordou em plena Copacabana. Abra as janelas do quarto, deixe a brisa bater e direcione-se ao La Finestra, restaurante com vista panorâmica do PortoBay Rio Internacional. Pão de queijo, suco detox, tapioca e frutas frescas dão o tom tropical da manhã.  

11h00 . Ao invés de sair a pé pelo calçadão da praia, que tal pedalar ? O Bike Rio mantém 2.600 bicicletas espalhadas por 260 estações estratégicas. Há planos diários por R$ 5 que garantem viagens ilimitadas de até 60 minutos, tempo de sobra para cruzar Copa até Ipanema.
12h00 . Ache um canto para chamar de seu e, entre um mergulho e outro, descubra as guloseimas típicas das areias cariocas: biscoito de polvilho doce ou salgado Globo e mate gelado com limão (os vendedores passam com galões já adoçados vendendo os copos) formam a combinação clássica e sagrada, mas vale besliscar queijo coalho grelhado, milho verde, potes de açaí com banana e granola, tomar caipirinha e água de coco.
14h00 . Talvez o horário do almoço não faça mais sentido, então, pare na Vero (R. Visconde de Pirajá, 229, Ipanema, tel.: 21/3497-8754) para um pedaço de pizza e um gelato artesanal. Lichia, gengibre e limão; framboesa, hibisco e tomilho; cacau baiano com pimenta arriba saia; pitaia; jambo; caju amigo; jamelão – o bolonhês Andrea Panzacchi é incansável na busca de sabores. Detalhe: qualquer um dos trinta exemplares diários da vitrine ainda pode rechear o panino, um pão orgânico fofo e quentinho. 

Foto: Tomás Rangel

15h00 . Caminhe até o Leblon e siga até o Morro Dois Irmãos. Vá pela Rua Gabriel Mufarrej, próxima ao canal do Jardim de Alah e à praia, onde há uma placa da Unidade de Polícia Pacificadora do Vidigal. Basta segui-la. Lá do alto, avistam-se alguns dos cartões-postais da cidade: a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Jardim Botânico, o Corcovado e, claro, as praias do Leblon e de Ipanema. 

Foto: Riotur

18h30 . Pegue uma bike para retornar ao PortoBay Rio Internacional, em Copacabana. No entanto, antes de chegar lá para o merecido descanso, detenha-se no iVenga! Chiringuito (Av. Atlântica, 3880, Copacabana, tel.: 21/3264-9806). Dependendo do seu estado de espírito, pode ser um pit-stop, dependendo pode ser uma estadia noite adentro. A agradável casa com vista para o mar tem parceria com os pescadores da Colônia de Pesca do Posto 6. Ou seja, os insumos para as tapas, arroces e fideuás são locais e fresquíssimos. E caem super bem com uma (ou umas, ou várias) gim tônicas. A com tomilho, capim-santo, manjericão e limão é tão fresca e vai tão bem com os petiscos que é um perigo !!

Foto: Rodrigo Azevedo


Sábado

10h30 . As praias estão enchendo, então, porque não ir na contramão ? A área portuária do Rio, que até pouco tempo se encontrava deteriorada, triste e suja, transformou-se no Porto Maravilha. Ali, o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana lembra Portugal, com suas vielas e construções coloniais. Nele, destacam-se o Jardim Suspenso do Valongo, na encosta do Morro da Conceição, de onde se vê o Cais do Valongo e o Cais da Imperatriz; a Pedra do Sal, ponto em que reza a lenda o samba nasceu; o Cemitério dos Pretos Novos, na Rua Pedro Ernesto 32, descoberto em 1996 e hoje convertido em um memorial para os cativos que não resistiam aos maus tratos da viagem da África até ali.
13h00 . O passeio está uma delícia, mas denso, certo ? Hora de desanuviar. Rume para o A.S.A. Açaí (R. Sacadura Cabral, 79, Saúde, tel.: 21/ 2263-9094), um cantinho especializado nos sabores da Amazônia, com preciosidades como a castanha-de-caju de uma cooperativa só de mulheres na cidade de Tailândia, no Pará, e o chocolate da região do Baixo Xingu, além de tapioca, farinha-d’água e azeite de tucumã provenientes de Irituia. Vale provar a reconfortante tigela de puro açaí ou, se a fome for mais intensa, a galinha no tucupi.
14h00 . De volta à trilha dos museus, percorra o MAR (Museu de Arte do Rio), instalado num antigo palacete de Dom João VI, abriga exposições de talentos e cores brasileiras, com um andar todo dedicado às terras cariocas. Na sequência, dê atenção ao Museu do Amanhã. A estrutura projetada por Santiago Calatrava ocupa 15 mil metros quadrados do Píer Mauá e está cercado por espelhos d’água e jardins assinados pelo escritório Burle Marx, assim como ciclovia e área de lazer. Um espaço para provocar a discussão sobre temas como a utilização de energias renováveis, assim como as formas da arquitetura moderna e sua relação com a paisagem. 

Foto: Alexandre Macieira/Riotur

19h00 . De volta ao hotel, tome um drinque na piscina, aprecie a vista e prepare-se para um jantar inesquecível. A reserva já deve estar acertada no Lasai (Rua Conde de Irajá, 191, Botafogo, tel.: 21/3449-1854). Dê preferência para o concorrido balcão de frente para a cozinha, onde se aprecia o balé silencioso e cadenciado do chef Rafa Costa e Silva e sua equipe.

Instalada numa casa do início do século XX, a cozinha se apoia em ingredientes brasileiros, a maior parte proveniente das duas hortas que o restaurante mantém – uma no Itanhangá, na zona oeste, e outra na Serra fluminense. Além de estrela no Guia Michelin, o Lasai figura na 76ª posição do World´s 50 Best Restaurants e na 16ª entre os melhores da América Latina. Ainda assim, um lugar despretensioso, com atendimento cativante e menu degustação surpreendente – dos snacks aos petit-fours do café, passando por vegetais tão protagonistas quanto o pescado que tenha deixado o mar naquele dia ou a barriga de porco desmanchando. Recomenda-se seguir a harmonização proposta pela sommelière, que privilegia rótulos orgânicos, biodinâmicos e naturais, e ainda abre espaço para coquetéis e cerveja artesanal.

Domingo

11h00 . O café da manhã preguiçoso e de frente para a orla despertou a vontade de descer à areia, não é mesmo ? Porém, era tanta gente que bateu uma dúvida ? Há uma saída certeira: desfrutar por sobre as nuvens. O Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Jockey Club, a Floresta da Tijuca, a Pedra da Gávea, e uma praia mais linda que a outra – a Barra da Tijuca, Joá, São Conrado, Leblon, Ipanema . .. Deixar a cidade aos seus pés é sempre um bom investimento !! Uma agência confiável e com pacotes promocionais é a Rio2Fly.
13h00 . Como os voos saem do aeroporto de Jacarepaguá, uma boa alternativa é aproveitar o restante do dia para curtir as praias da zona oeste do Rio, consideradas as melhores. Vale esticar a canga e abrir o guarda-sol na Joatinga, no Pepê, na Praia da Reserva, na Macumba, na Prainha, na nudista Abricó ou em Grumari, por exemplo.

Outra opção é regressar à zona sul, mais especificamente ao Azur (Av. Delfim Moreira, Posto 11, Leblon, tel.: 11/98295-0045), quiosque badalado e pé na areia do chef Pedro de Artagão (do Irajá Gastrô, Formidable Bistrot, Petit e Cozinha Artagão). Antes de apostar nos pratos a serem compartilhados, caso das moquecas e do estrogonofe de camarão com cogumelos e açafrão, navegue por entre os quitutes cariocas. O mais famoso é a empada, que pode ter recheio generosos de palmito fondant, cavaca ou camarão com Catupiry.

Para beber, há drinques refrescantes com vinho do Porto que podem ser igualmente divididos. Neste caso, boa pedida é a jarra branca, com Porto dry white, uva, maçã verde, carambola, alecrim, maracujá e soda limonada.

21h00 .  Para se despedir no final de semana a dica é o Nosso (R. Maria Quitéria, 91, Ipanema, tel.: 21/99619-0099), um bar de fachada discreta que se espalha por três andares. Uma das estrelas da carta de drinques é o rum, que surge em mojitos, daiquiris e criações envelhecidas em barril do premiado bartender Tai Barbin.

Curiosa e felizmente, por lá é que a alta coquetelaria dialoga com a cozinha do jovem chef Bruno Katz, que inclusive serve um menu degustação, para até quatro comensais, sob reserva. O delicioso passeio de seis tempos costuma passar por ostras e vieiras frescas da região.

Segunda-feira

9h00 . Saia do hotel com disposição: o Jardim Botânico (Rua Jardim Botânico, portão nº 1008 ou Rua Pacheco Leão, portões nº 101 e nº 915), o primeiro do Brasil. A ideia foi de Dom João VI, logo na chegada da Família Real portuguesa no Brasil. O príncipe regente acreditava que as especiarias orientais, tão em alta no período, pudessem se adaptar àquele solo. Pelo bem ou pelo mal, os 540.000 metros quadrados não se tornaram uma plantação lucrativa, mas o berçário de mais de 3.400 espécies de plantas e, portanto, um importante instituto de pesquisa, um patrimônio nacional e uma reserva da biosfera da Mata Atlântica.

Ali, vale se perder por entre as simbólicas palmeiras imperiais, cuja altura equivale à de um prédio de 15 andares, pelos orquidários. Vale achar quedas d'água, lagos, pontes, animaizinhos silvestres. Vale passar horas a fio naquela imensidão de natureza.

14h00 . Também gigantesco é o Xian (R. Almirante Silvio de Noronha, 365, Rooftop, Centro, tel.: 21/2303-7080), com mais de 3.000 metros quadrados. Vai soar engano, mas não é: ele está dentro de um shopping center, Bossa Nova Mall, anexo ao Aeroporto Santos Dumont. Trata-se de um complexo que reúne bar, lounge, living, restaurante e night club, rodeado por mandalas, lago de carpas, jabuticabeiras, gravuras exclusivas, muito vidro, madeira e espelhos e estrategicamente posicionado diante da Baía de Guanabara, do Pão de Açúcar, do Aterro do Flamengo e do Cristo Redentor.

O salão principal, com belíssimos painéis femininos assinados pela designer Silvia Girão, é dos mais impactantes da cidade. Um lugar delicinha para pratos de inspiração asiática, que podem ser embalados por saquês especiais. 

Foto: Tomás Rangel

16h30 . Imperdível: somente às segundas-feiras, a partir das 16h00, acontece o Samba do Trabalhador, no Clube Renascença (R. Barão de São Francisco, 54, Andaraí, tel.: 21/3253-2322). Sob o comando do cantor e compositor Moacyr Luz, a autêntica roda de samba é a melhor maneira de iniciar a semana com a alma lavada.
Quando as pernas não aguentarem mais sambar, recorra a uma saideira no Momo (R. Gen. Espírito Santo Cardoso, 50, Tijuca, tel.: 21/2570-9389), outro orgulho da região pouco turística. A dupla bolinho de arroz e batida de maracujá é infalível, mas há outras receitas que esbanjam sabor, caso do jiló recheado com queijo em molho de carne assada e do aldir blanc, uma panelinha com moela, sedoso purê de batata-doce, quinoa frita e temperos asiáticos.


Terça-feira

9h30 . Os bondes amarelos, que ligam o centro do Rio a Santa Teresa, não são apenas uma imagem de cartão-postal – eles funcionam de fato como meio de transporte para os moradores do bairro formado no século XVII. Mas, sim, vale embarcar em um deles. Da estação inicial, ao lado da estação de metrô Carioca, na Rua Lélio Gama, há saídas de 30 em 30 minutos. 
Suba até a o Largo dos Guimarães, então comece a explorar as ruas de paralelepípedos, as lojas de artesanato, a Igreja e o Convento de Santa Teresa (pertencente a Ordem das Carmelitas Descalças), os ateliês de artistas plásticos, o Museu da Chácara do Céu, com quadros seus de modernistas, e o vizinho Parque das Ruínas, com resquícios de um palacete e uma bela vista, ele é uma obra por si só, mas apossui sala de exposições também. 

Foto : Pedro Kirilos/Riotur

13h00 . Na hora em que a fome começar a bater – começar, ok ? Senão as ladeiras serão um imenso obstáculo !! – inicie a subida até o Aprazível (R. Aprazível, 62, Santa Teresa, tel.: 21/ 2508-9174), um terreno cercado por verde e vista arrebatadora – o casario local, a Baía de Guanabara, o Sambódromo, a Igreja da Penha, o relógio da Central até a Serra dos Órgãos.

Por lá, a cozinha mistura heranças familiares à cultura alimentar de diferentes regiões brasileiras. Entre os clássicos do cardápio, pães de queijo (receita da avó da proprietária, recheado com linguiça artesanal ou com copa lombo e geleia picante de abacaxi) e o arroz carioca, com camarão VG ao açafrão, vinho branco, leite de coco e gengibre.

Foto: Tomás Rangel

16h00 . Finalize a excursão descendo a icônica Escadaria de Selarón. Uma vez a seus pés, aprecie os 250 degraus cobertos pelos 2.000 azulejos coletados em mais de 60 países. Caminhe pelo centro histórico da cidade, cheio de prédios lindos, como a Catedral Metropolitana, o Teatro Municipal, o Palácio Imperial, o Real Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca Nacional e o Palácio Tiradentes. Ao cabo, descanse tomando um café na Confeitaria Colombo. 

Foto: Pedro Kirilos/Riotur

20h00 . Desde os anos 1970, o francês Claude Troisgros é um dos chefs mais queridos do Brasil. Mal abriu o Chez Claude, já deu um jeito de lançar o descontraído Le Blond (R. Ataufo de Paiva, 1321, Leblon, 21/3322-1440). O Leblon foi o primeiro bairro do cozinheiro e abrir ali lhe pareceu uma homenagem a seu centenário. À mesa chamam atenção a chegada de panelas, como a Paul Bocuse, com ovo poché sobre brioche, purê de cogumelos, aspargos, presunto cru e molho bearnaise, a de ravióli de abóbora com sálvia, amêndoas e queijo Grana Padano ou a de moqueca de peixe à francesa.

Para encerrar com doçura, o petit gâteau é feito com doce de leite e coberto por requeijão e queijo da Serra da Canastra.
Como são apenas 60 lugares e trata-se de uma novidade, o conselho é chegar cedo. Ou sem pressa. Se assim for, distraia-se na fila tomando uma tacinha de vinho e imaginando como será sua próxima estadia no já saudoso Rio de Janeiro.

Foto: Ana Cecilia Brignol


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