Da costa ao campo

"Sabe porque é que o mel do Algarve é o melhor de Portugal? Porque as nossas abelhas têm mais de quinhentas flores selvagens à escolha. Veja! Perceba o que estou a dizer.”

Vítor, o nosso guia e motorista, abrandou o jeep assim que fizemos a curva para São Brás de Alportel.  À nossa esquerda, um manto de flores extraordinariamente brilhantes e coloridas bordavam a encosta, iluminando-a com manchas de amarelo, rosa e azul.

"Ignorar o interior é perder uma parte linda do Algarve!”, acrescentou o Vítor, depois de retomarmos a marcha, "e nesta altura do ano há flores em todo o lado!”.

Estávamos a caminho do barrocal, uma região que ele poeticamente descreveu como "a zona aninhada entre as montanhas e o mar”

O Vítor foi buscar-nos ao hotel PortoBay Falésia, um hotel 4 estrelas localizado nos arredores de Albufeira com vista para a Praia da Falésia, um areal dourado de Bandeira- Azul com quase 6km de extensão ladeado por  rochedos de arenito.

No hotel decorria o evento anual Algarve Nature Week. Concebido para apresentar a notável diversidade de flora e fauna da região, o seu património cultural, tradição marítima e deliciosa gastronomia, o programa oferecia safaris de jeep​​, caminhadas e passeios de bicicleta, passeios de barco e cruzeiros fluviais.

Optei pelo passeio de jeep "Tradição& Sabores”. O itinerário levou-nos por um caminho com paisagens rurais até à remota Serra do Caldeirão, uma área montanhosa repleta de azinheira e sobreiro semelhante ao do Alentejo.

Sabores e tradições

Já tínhamos feito uma pausa para café num pequeno e aconchegante estabelecimento chamado Tesouros da Serra. O café é especializado em bolos caseiros, biscoitos e doces - ricos , doces e diabolicamente tentadores.

Ainda estávamos deliciados quando chegamos à Novacortiça, uma fábrica de cortiça situada a poucos quilómetros a sudeste de Alportel, a "capital da cortiça" de Portugal.

A fábrica, um negócio familiar de sucesso, fabrica discos de cortiça natural, um componente essencial às rolhas para garrafas de vinho e de champanhe.

Gilmar de Brito cumprimentou-nos calorosamente antes de nos conduzir à sala de exposição. A sua palestra introdutória foi descontraída mas altamente informativa e narrou todo o processo de fabricação de cortiça, desde a casca até estar na garrafa.

"A casca de cortiça demora 25 anos a estar pronta para a colheita", explicou . "Depois são mais 9 anos até à colheita seguinte. Trabalhar com cortiça é um investimento a longo prazo.”

A visita incluía uma visita à zona de produção. O Gilmar guiou-nos através de uma quantidade imensa de máquinas barulhentas, uma linha de produção reverberante, onde a casca despojada é fervida, cortada e moldada. O barulho era incessante.

Depois de cair de uma correia transportadora, os discos passam por uma verificação superficial final,feita por olhos treinados para detetar quaisquer imperfeições. Agrupados em cima de uma bandeja enorme, pareciam biscoitos digestivos gigantes, perfeitos para mergulhar numa caneca de chá fumegante.

A meio a tarde, o céu escureceu e chovia constantemente quando o Vítor nos dirigia para a vila de Salir.

Num dia claro, seríamos recompensados com uma vista dramática sobre as colinas e a costa distante. Em vez disso, nuvens baixas e uma névoa de vapor privaram os olhos de qualquer coisa parecida com uma vista.

Ao abrir um pouco da janela, engoli o ar húmido e saboreei o aroma rico e almiscarado da terra molhada. Em vez de entristecer o meu espírito, o estado do tempo provocou em mim uma curiosa sensação de isolamento e de comunhão com a natureza. A paisagem diluída tinha tomado uma qualidade etérea, onde a forma e a textura se dissolveram numa lavagem monocromática.

Por si só, as ruínas do castelo mouro de Salir do séc. XII não têm muito que ver. Mas a integração inteligente de um museu, construído sobre o local de escavação de uma comunidade islâmica, elevou este remanso rural a uma das atrações culturais imperdíveís da região.

A galeria tem um piso de vidro e pudemos identificar facilmente as bases de uma rua e várias habitações. Um silo de armazenamento escavado na pedra calcária era claramente visível. Contemplei o cenário e tentei imaginar a vida no Algarve há 800 anos.

E então um divertido episódio quebrou o feitiço. Aproveitando o facto de a porta estar aberta, uma gatinha tinha-nos seguido pela entrada, sem dúvida à procura de um abrigo da chuva. A gata encharcada, com o pêlo malhado e olhos verde-esmeralda, aninhou-se aos pés do nosso guia, parando efetivamente, a meio da frase, a descrição que este fazia de uma peça rara e incomum – uma lápide inscrita em árabe, com data de 1016. Rimo-nos todos e revezamo-nos a brincar com a intrusa peluda até que ela se passeou, de cauda levantada e ronronando, até um canto perto à janela, para se aquecer.

Com a nossa lição de história concluída, o Vítor acelerou o jeep para a nossa última paragem do passeio "Sabores & Tradições” – uma visita a uma quinta tradicional do Algarve.

A Quinta do Freixo deu-nos outra desculpa para provar comida caseira.

Juntamo-nos numa casinha, sobre um chão de pedra. Ferramentas antigas e cestos de vime decoravam as paredes, para dar ao quarto um ar pitoresco, do passado.

Como um gesto de boas-vindas, um licor forte e aveludado de alfarroba foi bem aceite.


Disposta pelo bar, havia uma fila de compotas - pêra , figo, abóbora, groselha, morango, laranja, tomate... um regimento de fruta preservada em potes à espera de ser provada.

Foi um momento delicioso, e provei tudo o que estava na mesa. As compotas de laranja e de figo foram as minhas favoritas, mas barraria uma torrada com qualquer uma delas.

No regresso ao hotel, o Vítor quis fazer um desvio rápido, "Quero mostrar-vos uma coisa especial”, disse ele, conduzindo o jeep para fora da estrada em direção a um trilho. Seguiu até ao limite do prado e parou no final. "Ali”, apontou, "O que é que vêem?”

Delineada contra a garoa estava a silhueta poderosa de uma oliveira, com as suas raízes espessas e em forma de tentáculo enroscadas na terra. "Aquela árvore tem cerca de 1200 anos", disse o Vítor, humildemente.

Todos nós estivemos uns momentos a olhar para o passado antes de o Vítor voltar para a estrada. Atrás de nós a árvore venerável ficou em silêncio, a sua retorcida e antiga casca brilhava à chuva.

Parte II

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