02 Mai 2016 493
Paul Bernhardt {Photographer & Writer} www.paulbernhardtphoto.com
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Parte I

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Educação Cultural e Ambiental

O tempo parecia melhor no dia seguinte, mas não estável o suficiente para o hotel confirmar plenamente meu segundo dia de atividades. Assim, em vez de canoagem e caminhadas, dei por mim novamente num 4x4.

Desta vez, o nosso guia e motorista foi o Mateus, cujo itinerário diferia o suficiente do percurso feito pelo Vítor, para permitir uma perspectiva diferente do interior do Algarve.

Na verdade, a grande diferença era o tempo seco.

Com apenas 30 minutos de viagem já se conseguia observar alguma da esplêndida fauna,  incluindo a  perdiz e a impressionante poupa, notável pela sua distinta "coroa” de penas.

Mais tarde, o Mateus parou ao lado de um conjunto de cavidades escavadas em arenito cor de ferrugem. "Aqueles são os ninhos dos abelharucos", indicou ele. "Estas aves costumam chegar aqui quando a lavanda começa a florir".

Lembrei-me do que o Vítor referiu sobre o mel do Algarve e a proliferação da flora nesta altura do ano.

"As colónias de abelhas podem chegar aos 80.000 insectos”, disse o Mateus, lendo o meu pensamento. "Os pássaros apreciam o banquete, mas sobram imensas abelhas, até para sobremesa”, brincou.

O sol foi brilhando em intervalos e o calor começou a invadir o campo.

Fomos bem para fora do trilho de terra batida, passando por campos preenchidos com tomilho fresco e funcho em flor. A intensidade do sol pedia uma paragem em frente a um terreno cheio de cor, tal era a abundância de plantas em flor e arbustos.

Ramos de jacinto azuis, narcisos de inverno e oxalis cor-de-rosa pareciam flutuar num mar de azedas amarelas e malmequeres delicados. Algumas papoilas balançavam gentilmente na brisa enquanto aglomerados de alcar congregavam ao longo do caminho. O cenário era digno de uma pintura e o perfume era inebriante!

"Alguém quer um ovo estrelado?”, gritou o Mateus, balançando num muro baixo de granito quebrado.

Intrigados, caminhamos até lá.

Debaixo dos pés do nosso motorista estava um monte de Sargaço. Discos de grandes pétalas branco-giz rodeavam os brilhantes olhos amarelo-limão das flores, pelo que estas se assemelhavam, de facto, a ovos estrelados numa frigideira. Imediatamente, um par de pega-azuis dispararam sobre as nossas cabeças, a sua canção parecia uma risada, como se ambos estivessem na brincadeira.

Em jeito de aperitivo antes do almoço, o Mateus levou-nos até Montes de Cima, uma pequena aldeia aninhada no interior do barrocal.

Ao chegar a uma pequena casa pintada de branco, cheirámos o aroma pungente da fumaça que saía por uma chaminé redonda, típica da arquitectura algarvia. Enquanto estacionávamos, o cão do proprietário latia, mostrando o seu desagrado por ter sido acordado da sua sesta.

Tínhamos chegado à casa de campo da Rosa.

Rosa, uma octogenária vivaz de poucas palavras mas generosa de coração, tinha aprontado uma garrafa de Medronho, uma bebida espirituosa maravilhosamente suave, semelhante a brandy, feita a partir de medronho e adoçada com mel.

O Mateus serviu um copo a cada um de nós. Para absorver o álcool, foram oferecidos deliciosos figos secos, e fomos convidados a abrir amêndoas, usando um martelo velho para quebrar a casca. Depois de uma breve visita ao jardim da Rosa, que tinha um limoeiro com um aroma delicioso, despedimo-nos alegremente e partimos para a aldeia vizinha de Tôr.

Almoçámos n’ O Monte, um dos restaurants mais conhecidos de Tôr, onde nos foi servido porco assado, batatas fritas e salada, acompanhados por um agradável tinto da casa. A sobremesa foi um simples prato de laranja laminada, talvez a mais doce e sumarenta que alguma vez provei.

De volta à estrada, contornámos o marco da Rocha da Penina, uma impressionante escarpa de pedra calcária, onde fazem ninho a Águia-perdigueira, em extinção, e o Bufo-Real, espécie em perigo. Mas agora o sol estava, mais uma vez, escondido atrás de uma nuvem baixa e densa.

Assim que o Land Rover se aproximou do fim de uma estrada longa e difícil, o Mateus travou de repente.

"O homem nu!”, exclamou.

Olhámos uns para os outros, um pouco confusos.

O nosso motorista já estava fora do jeep, abaixando-se e arrancando algo do chão. "Deixem mostrar-vos como é que um homem nu se parece”. As senhoras do nosso grupo riram-se.

Ele abriu a porta do passageiro e inclinou-se.

Pousada na sua mão estava uma pequena flor com pétalas de filigrana cor de lilás.

"Esta é a flor dos macaquinhos (em inglês, Naked man orchid – orquídea do homem nu), uma das orquídeas mais bonitas e mais comuns que se pode encontrar no Algarve”.

Uma vez mais, o sentido de humor do nosso guia apanhou-nos desprevenidos. Existem cerca de 30 espécies diferentes de orquídeas selvagens no Algarve. Exemplos conhecidos incluem a família das fascinantes orquídeas-abelha, que espantam os curiosos com a sua semelhança ao insecto. Igualmente fascinantes são as fabulosas orquídeas-vespa, cujas pétalas assemelham-se a uma palete de Van Gogh’s.

O Mateus, tal como o Vítor, mostrou ser um guia conhecedor e amável, e depois de termos explorado a bela vila de Alte – a última paragem do roteiro – reclinámos os nossos assentos para a agradável viagem de volta à costa.

À noite, no hotel, analisei o programa da Algarve Nature Week. Faz sentido que se lancem atividades em Abril, no auge da Primavera. O timing também ajuda a combater o problema de sazonalidade da região, atraíndo turistas que, de outra forma, teriam esperado pelo verão para viajar até ao sul de Portugal.

Mas mais que isso, a iniciativa promove um Algarve menos conhecido, uma região incrivelmente bonita onde persiste um estilo de vida calmo e de costumes e onde somos genuinamente bem recebidos.

Na verdade, é um exercício de consciência cultural e ambiental, em todos os aspectos.

Brindei com um copo de vinho, um tinto da Quinta do Barranco Longo, aqui no Algarve. Esperem lá, vinho do Algarve?

Ah, isso é outra história.
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