03 Set 2019 622
Sandra Nobre Short Stories
#cultura #experiencias

E é olhar-te assim, perdidamente . ..

Há os miradouros, assim denominados, no alto das colinas, donde se pode apreciar a capital. E há spots que proporcionam vistas panorâmicas de cortar a respiração. Uns e outros, fazem-nos sentir nas nuvens.

Destino: Lisboa

Não me canso de dizer que de tantos países onde aterrei — a última contagem, já lá vão uns anos, somava 41, o que multiplicado por cidades e repetidos regressos nem vale a pena tentar fazer as contas —, Lisboa fica com o prémio da melhor vista urbana. Polémicas à parte, por causa do ruído do tráfego aéreo e da segurança, blá, blá, blá, chegue-se por Sul – a minha perspectiva favorita –, apreciando a faixa litoral da Costa da Caparica e acenando ao Cristo Rei, cruzando a Ponte 25 de Abril, e planando sobre toda a cidade, ou pelo Norte, com a Ponte Vasco da Gama no horizonte e toda a zona oriental da cidade, renascida depois da EXPO’98 com traços arrojados de modernidade, ninguém fica indiferente. A não ser que tenha ficado com um lugar do corredor, o que não é a melhor escolha quando se tem Lisboa por destino. A luz, o rio, a História toda à janela do avião.

Nota: reserve lugar à janela para apreciar a vista.

Os clássicos miradouros

Empoleirados nas colinas de Lisboa, deixam a descoberto cada bairro, todas as linhas que desenham a cidade que se vê reerguer-se e ganhar novas cores, entre gruas e andaimes, a cada dia. Pode-se traçar quase um eixo que a divide ao meio, tomando a Avenida da Liberdade, o outrora Passeio Público, como referência.
De um lado, como uma grande janela entreaberta de par em par, São Pedro de Alcântara, entre o Chiado e o Príncipe Real, de costas viradas para o Bairro Alto, como se escondesse com pudor a vida boémia que lhe assiste a cada noite, de porta em porta, de bar em bar. Dali, fica-se de olhos postos na Graça, no Castelo, no Jardim do Torel, nas ruelas da Mouraria. E o Tejo, ao fundo, imagem estática, como um quadro pintado a aguarela, contrariando a pressa dos dias. Mesmo ao lado, o Ascensor da Glória, monumento nacional desde 2002, embaraçado entre rabiscos feitos por artistas sem talento – a diferença entre arte pública e vandalismo -, ainda seduz os turistas que passam e leva-os a meio caminho para os miradouros do outro lado da Avenida. Ainda deste lado, entre as ruas do Chiado, o Miradouro de Santa Catarina, mais conhecido por Adamastor, o símbolo das tormentas d’Os Lusíadas, idealizado por Luís Vaz de Camões, representado numa estátua virada para o Tejo que lhe deu fama. Fechado ao público há mais de um ano, continua a incerteza se depois das obras vai ganhar uma grade de protecção e horário de funcionamento. Por agora, entre pó e máquinas, não é a melhor opção para contemplações.

Foto: Miradouro São Pedro de Alcântara
Cruza-se a Avenida da Liberdade e sobe-se no Elevador do Lavra, inaugurado em 1884, é o mais antigo da cidade e continua no activo, num sobe e desce entre o Largo da Anunciada e a Rua Câmara Pestana, através da Calçada do Lavra – igualmente, monumento nacional, à semelhança do ascensor da Glória (1885), da Bica (1892) e do Elevador de Santa Justa (1902). Chega-se ao Jardim do Torel, talvez o mais discreto dos miradouros, entre palacetes dos séculos XVIII e XIX. Originalmente, havia uma quinta cujo terreno foi cedido à autarquia, em 1928, tendo mantido o nome do seu proprietário. Daqui, descobre-se a Lisboa Ocidental e o vizinho miradouro de S. Pedro de Alcântara, defronte. O quiosque, a cafetaria e o parque infantil convidam a passeios de família. Aos finais e tarde, conta com uma programação cada vez mais regular (informe-se previamente), com actividades desportivas, música, cinema, e, em Agosto, ganha uma praia urbana. 
Não são assim tantos os lisboetas que saberão indicar o miradouro Sophia de Mello Breyner, nome oficial do sobejamente conhecido miradouro da Graça. O busto em bronze de uma das mais importantes poetisas do século XX e única mulher escritora com honras de Panteão Nacional, de quem se assinala o centenário do nascimento em Novembro, ecoa as memórias das vezes que desde o largo olhou a capital. As suas palavras ficaram inscritas no local: "Em seu longo luzir de azul e rio/ Em seu corpo amontoado de colinas/ Vejo-a melhor porque a digo”. E, na mais alta das colina, vê-se bem o Castelo de São Jorge, o rio, a ponte 25 de Abril, a malha urbana até se avistar o pulmão verde, o Parque Florestal de Monsanto. Junto ao promontório, a Igreja e o Convento da Graça, conjunto arquitectónico do século XII, reedificado no século XVI e recuperado depois do terramoto de 1755, tendo o convento passado a quartel militar com a extinção das ordens religiosas. No interior, conserva um importante conjunto de azulejos dos séculos XVI, XVII e XVIII. Tornou-se o bairro trendy, mencionado em todos os guias, pelo que é cada vez mais um ponto turístico com filas à porta dos pequenos estabelecimentos, onde ainda se pode provar a comida tradicional se tiver paciência para esperar...
É difícil dizer, qual a melhor panorâmica se pelos olhos de Sophia, se desde a Senhora do Monte, praticamente, lado a lado, mas mais acima. A Capela da Nossa Senhora do Monte, em pleno bairro da Graça, empresta-lhe a designação. A meia dúzia de passos, fica a Vila Berta, construída na primeira metade do século XX, destinada a habitação operária, ganhou o nome da filha do arquitecto Joaquim Francisco Tojal, que a projectou, é um lugar de paragem obrigatória em noites de santos populares, quando a vila se enche de bailaricos e sardinhas assadas. De volta ao observatório com Lisboa aos pés, a fotografia é de assombro, cabe tudo num olhar.
Sempre a descer, na direcção do Castelo, alcança-se o Miradouro das Portas do Sol, no bairro de Alfama. O mais frenético de turistas, barulhento, na mistura de trânsito e música ao vivo, e mais romântico, tantos são os beijos trocados nesta varanda, debruçada para o Tejo, como a proa de um navio. Avistam-se os navios que entram ao largo do Farol do Bugio e ficam ancorados em Santa Apolónia, sem perder de vista a cúpula do Panteão, as torres da Igreja da Graça e de São Vicente de Fora. O Museu de Artes Decorativas, no Palácio Azurara, pede uma visita. Continuando colina abaixo, seguindo a linha do eléctrico 28, outro cartão postal, chega-se à Sé de Lisboa, à Igreja de Santo António e à Baixa. À centenas de tuc-tucs a seduzir quem passa, mas se estiver com espírito de descoberta, calce uns ténis confortáveis e percorra as ruelas ao seu ritmo, parando para um copo de três (expressão usada para um copo entre refeições, com ou sem um petisco a acompanhar), uma prece, um souvenir ou uma selfie.

Outros observatórios imperdíveis

Se por "miradouro” se entende "ponto alto, de largo horizonte”, não se pode riscar da lista mais meia dúzia de locais estratégicos na cidade. Estando na Baixa, o triunfal Arco da Rua Augusta convida a subir. Depois do elevador e de 46 degraus em caracol, vislumbra-se a perfeita esquadria pombalina idealizada pelo Marquês de Pombal com ruas perpendiculares que conservam a toponímia dar artes que acolhiam – correeiros, ferreiros, sapateiros, etc. – tendo por eixo central a Rua Augusta e se estende do Terreiro do Paço ao Rossio e Praça da Figueira.
Umas ruas adiante, deve encontrar a fila para subir ao Elevador de Santa Justa ou do Carmo, um dos mais notáveis exemplares da arquitectura de ferro em Portugal, em estilo neogótico, assinada por Raul de Mesnier du Ponsard – erradamente, é atribuída a Eiffel a sua construção. Vencida a espera, faz-se a ligação entra a parte baixa e alta da cidade, deixando a nu, desde a esplanada, as ruínas do Convento do Carmo, o Rossio, o Castelo...
Entre a tarde de compras no shopping, impõe-se a ascensão ao Amoreiras 360 Panoramic View – se ainda não perdeu o fôlego, está prestes a acontecer. Até ao topo não chega a faltar o oxigénio, afinal são cerca de trinta segundos a viagem até alcançar os 174 metros de altura acima do nível do mar. Apresentando-se como o edifício mais alto de Lisboa, permite circular e ver a cidade em 360º graus ou sentar-se e descansar a vista na paisagem. Pode-se seguir o rasto de todos os que por aqui passaram no Instagram através do hastag #amoreiras360view. O famoso guia Lonely Planet assegura que é "a melhor vista de Lisboa".
A lista pode ser tão extensa quanto a curiosidade de cada um: o rooftop do MAAT, em Belém, é um spot interessante ao final da tarde; ou a subida à cúpula do Panteão Nacional ou Igreja de Santa Engrácia, na zona de Santa Clara, junto ao qual decorre às terças-feiras e sábado, a pitoresca Feira da Ladra; e por que não cruzar o rio e subir ao Santuário Nacional do Cristo-Rei, no alto do Pragal, em Almada, onde pode fazer a via sacra de Jesus e ter uma panorâmica completa de Lisboa...

Foto: MAAT 
Guarda-se o melhor para o final, ou pelo menos o miradouro que pede mais coragem – se tiver medo das alturas é melhor pensar duas vezes! No Pilar 7, da Ponte 25 de Abril – chamou-se Ponte de Salazar até à revolução de 1974 –, que se acede pela Avenida da Índia, em Alcântara, primeiro conhece-se a história da construção da ponte rodoferroviária, que faz a ligação entre Lisboa e Alma#da, na margem Sul do Tejo. Até aqui, tudo tranquilo. Com a subida, avistando-se os cabos que a sustentam, as pernas já cambaleiam de nervos. Mas é quando se sai para o varandim suspenso, transparente, forrado de vidro, que o medo se instala. Estamos ao nível dos carros que cruzam a ponte em direcção às praias da Costa da Caparica. É aconselhável não olhar para baixo e respirar fundo. Vista daqui, Lisboa é uma vertigem, uma ilusão, um maravilhamento, um desafio. Tantas emoções que me provocas! Mas, se pudesse, estaria sempre, sentada, à janela do avião, o meu miradouro preferido, a contemplar-te de longe e a aproximar-me com a urgência dos amantes para te abraçar.
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