08 Dez 2016 502
Fernanda Meneguetti {Jornalista}
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Então é Natal !!

Vinte e oito. Trinta. Trinta e três. Até quarenta graus. Dezembro no Brasil é assim. Quer dizer, sempre foi, pelo menos antes desses enfants terribles – El Niño e La Niña – tornarem-se tão temperamentais. Em pleno calorão, o trânsito piora sensivelmente. É um tal de todo mundo botar o carro na rua numa busca frenética por enfeites, itens para a ceia e, especialmente, presentes. Muitos deles: os dos pais, dos filhos, do cachorro da vizinha, do porteiro, da manicure, do amigo secreto e de quem der um sorriso mais cálido na proximidade do fim de ano. Não mais que de repente, todo mundo se sente um tanto Papai Noel.

Nada que afugente senhores a portarem trajes completos do bom velhinho em qualquer shopping center do país. Afinal, os pequenos se aglomeram nas filas para revelarem desejos e tirarem uma foto. Nos dias de hoje, de preferência, uma selfie. Um certo dó, pois aquelas cartinhas pueris, em que letras de forma anunciavam desejos por brinquedos mirabolantes e juras de bom comportamento, vão se extinguindo quase que por completo.

Da porta para fora das casas, não há uma escola que não faça um amigo secreto, tampouco uma classe de balé que não encene "O Quebra-Nozes”. As ruas comerciais e vitrines mais sofisticadas das cidades exibem luzes, pinhas, velas, bolas, laços e estrelas, pinheiros, renas e anjos. São tantos sinos, tons de vermelho e dourado que, se ao fundo não houver um Jingle Bells tocando, os ouvidos não notam e os corações escutam igualmente. Já à porta dos lares, uma guirlanda (coloridinha, artesanal, made in China ou de fibras natural, feltro e linha) antecipa um pinheiro (comumente artificial) repleto de penduricalhos – e não há ideias geniais, tropicalizadas ou não, de designers e de revistas de decoração que acabem com eles!

À brasileira, o clima natalino mistura inevitavelmente sentimentalismo e pieguice, consumismo e generosidade. Se fosse nos Estados Unidos seria a síntese entre o Dia de Ação de Graças (com direito a um suculento peru recheado) e o Natal em si (ainda que lá seja comemorado no almoço do dia 25 de dezembro, enquanto a grande atração no Brasil seja a noite do 24).

O Natal, como tudo nessa terra, traz latente uma dose de antropofagia: deglutir e digerir influências externas e internas, sem regras, visceralmente. Daí evocar cenário de filme europeu, com direito a neve e trenós, daí a mesa da ceia inevitavelmente ocupada por assados robustos (como pernil e presunto), frutos secos e vinho tinto.

Ao mesmo tempo, não há ceia que abra mão do salpicão (uma salada com frango desfiado, legumes, frutas e maionese que nem de longe se relaciona ao embutido lusitano ou ao salpicón francês), nem de uma farofa rica com a indígena farinha de mandioca, tampouco de rabanada (de longe portuguesa, porque aqui ela leva leite condensado e se esquece do toque de vinho do Porto) ou de panetone (a bem dizer, chocotone, com muitas gotas de chocolate e não as frutas cristalizada à la italiana). O Brasil é o mundo inteiro e, no fim de ano, carnavaliza em ritmo de "Noite Feliz”.

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