21 Set 2017 1810
Sandra Nobre {Jornalista} www.shortstories.pt
#capital #cultura #lisboa

Lisboa out of the box

Deixemos os clássicos, os lugares comuns, para deambular entre graffities, ouvir bandas que podem não passar de promessas, dar um pezinho de dança pouco comercial ou perdermos-nos entre livros que nos provocam ou que foram deixados antes dos seus donos seguirem viagem. Um roteiro alternativo pela capital. 

Hot Club

A primeira sessão começa às 22h30, com um set do grupo residente, passando depois para uma jam session aberta aos músicos que queiram participar. À meia-noite repete. Quando não há figuras de cartaz há os improvisos de quem se quiser juntar ao espetáculo em ambiente intimista. É assim de terça a sábado, com o mesmo espírito que chama a sua tribo para se embalar nos ritmos. Poucas casas têm um público tão fiel, mas quem está de passagem é sempre bem recebido.

Aquele que é um dos mais antigos clubes de jazz da Europa foi fundado oficialmente em 1940, assumindo-se como o grande divulgador do género musical. No seu palco, acolheu nomes famosos da cena jazzística, de Sidney Bechet a Count Basie. Em 1995 foi reconhecido como Instituição de Utilidade Pública. Conta com duas formações e a escola de jazz Luiz Villas-Boas. Em 2009, após um incêndio mudou-se para a atual morada, umas portas abaixo, sem que se alterasse o seu ADN. A conceituada revista americana DownBeat considerou o Hot Club um dos melhores 100 clubes de jazz do mundo.

Praça da Alegria, 48, Lisboa
Tel. (+351) 213 460 305
Fecha segunda-feira e domingo
www.hcp.pt

Underdogs

Vhils, "nome de guerra” do português Alexandre Farto, que é considerado um dos mais importantes artistas gráficos e urbanos contemporâneos é um dos mentores da plataforma Underdogs, que é também galeria, programa de arte pública que tem colaborado com uma centena de artistas oriundos dos quatro cantos do mundo. Desde 2013, este projeto cultural deu novos rostos, cores e formas em murais e edifícios públicos e privados espalhados pela capital. São obras de arte em grande escala que surgem no caminho de quem anda por Lisboa, assinadas por alguns dos principais nomes da nova arte urbana – aka Corleone pintou Desassossego (Rua Damasceno Monteiro, junto ao Miradouro da Senhora do Monte), Sainer pintou uma velha senhora a que chamou Crossroads (Av. Afonso Costa, 20, Olaias), o brasileiro Finok homenageou a mãe dos orixás e rainha dos mares, Iemanjá (Rua Manica, junto ao Aeroporto), o autor do mais famoso cartaz de Obama, Shepard Fairey assinou a meias com Vhils o rosto de uma mulher na rua Senhora da Glória, no bairro da Graça, e outro, mais adiante na na rua Natália Correia. De Vhils podemos também apreciar, entre outras, a obra intitulada Calçada, feita em calçada portuguesa, num tributo a Amália Rodrigues (Rua dos Cegos, 12, Portas do Sol), ou um rosto anónimo esculpido a martelo pneumático na parede de um edifício em Alcântara.

A Underdogs Gallery expõe os trabalhos destes artistas temporariamente, além de  acompanhar as intervenções na rua. Na Underdogs Art Store, no Cais do Sodré, podem-se adquirir serigrafias, merchandising e livros sobre arte urbana. Há ainda uma aplicação para saber onde fica cada obra: Lisbon Street Art. É descarregar e seguir-lhe os passos. 

Rua Fernando Palha,  Armazém 56, Lisboa
Terça a domingo,14h – 20h
Tel. (+351) 218 680 462
www.under-dogs.net 

B’Leza

Não é uma ilha, mas é como se fosse. Não é Cabo Verde, mas guarda a sua cultura e estende o seu mapa musical a toda a África, chegando a cruzar o Atlântico até ao Brasil e América Latina. O que importa é a música. A atual morada da mítica casa das noites lisboetas não tem o encanto do palácio decadente onde morou, no Largo do Conde Barão, durante mais de uma década, mas a música enche a sala e o calor humano faz o resto. Corpos colados, movimentos sensuais, como que embalados pelo baloiçar das águas do Tejo, e são mornas, kizombas, kuduro. O que importa é a música. Não são só concertos, são aulas de dança, um palco aberto para quem quiser juntar a sua voz aos residentes e um espaço de encontro da lusofonia. É só acertar o passo ou deixar-se conduzir por quem sabe.

 Rua da Cintura do Porto de Lisboa, armazém B, Cais da Ribeira Nova
Tel. (+351) 210 106 837
Quarta a domingo, 22h-4h
https://sites.google.com/site/blezaacr

Cine Incrível

Quem vem e atravessa o rio . .. Na outra margem, a 20 minutos a pé do cais de Cacilhas, aquela que foi a primeira sala para projeção de cinema do concelho de Almada, em meados dos anos 20 do século passado,  o antigo Cinema da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, tornou-se uma sala polivalente às mãos da associação Alma Danada. O aspecto é o de um daqueles bares americanos de stand up comedy à meia-luz, o que também tem lugar aqui, mas há mais – teatro, poesia, exposições de fotografia, workshops e sessões de cinema, claro. A música é o que mais se ouve, um melting pot do jazz ao rock, com tributos de António Variações a Megadeth. É só entrar no espírito.

 Rua Capitão Leitão, 1, Almada
Quinta a sábado, a partir das 22h
Tel. (+351) 218 227 722
www.cineincrivel.pt

Menina e Moça

A rua ganhou fama de cor-de-rosa mas não se julgue que a literatura por aqui é de cordel. A livraria-bar marca a diferença numa artéria onde sobra poesia popular, a partir de certa hora, alimentada pelo álcool que anda de copo em copo, nos antros contíguos. Nesta casa de aparência boémia, chamam-se os autores da lusofonia para a conversa – alguns estão presentes nos retratos captados pela lente de João Francisco Vilhena, que aqui se mostram –, muitos em versões traduzidas em Inglês para levar a língua de Camões aos turistas e seguir com eles viagem. Em vez de estrelas, observa-se o tecto pintado pelo ilustrador João Fazenda. E, às páginas tantas, se a fome apertar, há comidas e bebidas (dos diferentes países da lusofonia) para intercalar com as letras. Para o final, clássicos nacionais, uma ginja ou um medronho. Em dias incertos, há tertúlias e animação cultural.

Fecha à segunda-feira. Abre às 12h-2h
Rua Nova do Carvalho, 40-42, Lisboa
Tel. (+351) 218 272 331

Galeria Zé dos Bois

Já foi um lugar moribundo e pequeno demais para tanta procura, mas com os anos renovou-se continuando a ser ZDB para alívio de muitos. Fica no coração do Bairro Alto e é uma ode à arte contemporânea nas suas diferentes expressões, seja nas artes performativas, visuais ou musical. O antigo Palácio Baronesa de Almeida transformado em associação cultural sem fins lucrativos, em 1994, é um  centro com uma programação eclética, onde de andar em andar, se apresentam espetáculos de teatro, dança, música, exposições e se reúnem artistas em residências e ações educativas. Por ali passaram nomes quando ainda eram apenas promessas e se tornaram confirmações e outros, verdadeiras epifanias, mais alguns que não conseguiram mais do público do que dar o tempo como perdido. É esse o encanto e a razão pela qual vale a pena voltar.

Rua da Barroca, 59, Lisboa
Tel. (+351) 213 430 205
www.zedosbois.org

Plateau

O mundo, aqui, parou entre as décadas de 80 e 90 do século passado. Há uma bola de espelhos ao meio da pista de dança, a gabine do DJ ao centro a dar o mote para os velhos êxitos que se repetem, semanalmente, e luzes psicadélicas a pairar. Pode-se chamar "febre de sábado à noite”, mas é a mesma febre de sexta, entre o pop e o rock com pequenas pinceladas de outros géneros, sem fugir da playlist que marcou uma época. Às quarta-feiras, o mote é "We love the 90’s”. Desfilam Bowie, U2, The Cure, Prince, The Pretenders, Tina Turner, Bon Jovi, Michael Jackson, Madonna, AC/DC, Whitesnake . .. Vira o disco e toca o mesmo. Contrastando com a oferta de Santos, cada vez mais jovem, a mítica casa lisboeta conta 34 anos e mantém-se fiel ao estilo a que habitou a clientela de diferentes gerações, que não arreda pé da pista antes das 6h da manhã.

Quarta, sexta e sábado, 00h – 06h
Escadinhas da Praia, 7, Lisboa
Tel. (+351) 911 126 402
www.plateau.com.pt

Foto: Paulo Esteves

Cabine de Leitura de Portugal

São bibliotecas tão pequenas que cabem dentro de uma cabine telefónica. Arrumados em minúsculas prateleiras encontram-se livros usados, que aqui estão à mão de quem os quiser ler. O objectivo é promover a leitura e estreitar laços comunitários. Mesmo quem está de passagem pela cidade também pode ir lá requisitar um livro e deixar outro em troca ou apenas deixar o seu para não lhe pesar na bagagem. Os títulos disponíveis são para todos os gostos, dos romances à gastronomia, dos policiais à poesia, da auto-ajuda aos infantis. Para o menino e para a menina.

Todos os dias
Praça de Londres, 10,  Lisboa
Jardim Teófilo Braga, Campo de Ourique

Silverbox Studio

No tempo das selfies e de todas as aplicações fotográficas que cabem num telemóvel, a Silverbox propõe uma viagem ao mundo dos retratos oitocentistas, feitos com uma máquina fotográfica de madeira com tripé e revelados numa câmara escura, em vidro ou alumínio. Tirar a fotografia é por si só uma experiência invulgar: o momento é quase solene, a pose deve manter-se durante oito a dez segundos, pelo que não é aconselhável sorrir, porque não vai ficar bem . .. O casal Rute de Carvalho Magalhães e Filipe Alves recuperaram o Colódio Húmido, um processo fotográfico com quase 160 anos, em que a imagem obtida constrói-se de milhões de minúsculos cristais de prata. Pode-se acompanhar todo o processo até ter a fotografia nas mãos. O resultado final, é uma imagem única e singular, o que torna o momento ainda mais especial.

Por marcação
Rua Braamcamp, 88, 4º Esq., Lisboa
Tel. (+351) 218 057 735/ 915 074 612
www.silverbox.pt

Bicicletada

Acontece nas últimas sextas-feiras de cada mês, às 18h. O ponto de encontro é no Parque Eduardo VII, no Marquês de Pombal, e é aí que, antes de se iniciar o percurso, é conhecido o roteiro. Com duração de cerca de 1h a 1h30, é acessível para qualquer pessoa e aberto a todas as idades, basta levar uma bicicleta e juntar-se ao grupo. Aqui, não há camisola amarela para o mais rápido nem provas de montanha, a ideia é seguir tranquilamente a uma velocidade reduzida, de forma a apreciar as atrações por onde passa, enquanto a noite começa a espreitar na cidade.

Última sexta de cada mês, 18h
Parque Eduardo VII, Marquês de Pombal, Lisboa
Ar livre

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