11 Jul 2018 599
Fernanda Meneguetti {Jornalista} Devorável
#gastronomia #sabores #saopaulo

Sotaque lusitano navega a gastronomia paulistana

É inevitável: quando um brasileiro pensa em comida portuguesa, a primeira coisa que vem à mente é bacalhau. Não raro, em forma de aloirados e cremosos bolinhos. Caldo verde, arroz de pato e pastel de nata vêm na sequência. No entanto, verdade seja dita, os últimos anos vêm mudando (ou no mínimo, ampliando) esse panorama. Pelo menos em São Paulo.

O fato de a cidade abrigar mais de 100 mil portugueses deve, sim, ter alguma influência. Mas, mais do que isso, há os paulistanos que viajam e se apaixonam cada vez mais por Portugal. Em contrapartida, há os portugueses trazendo na mala novos sabores nacionais.

Vinho lusitano, por exemplo, virou símbolo de segurança, ou seja, prazer com boa relação custo benefício. Sardinhas deixaram de ser automaticamente associadas a latinhas, nem sempre de boa qualidade. E sericaia virou alternativa para o tradicional pudim de leite condensado.

Alguns culpados nesse processo têm nome e sobrenome, caso de Vítor Sobral. No comando do grupo Esquina, hoje com quatro casas em Lisboa e outras três na capital paulista, o chef trouxe uma cozinha de autor com base nos produtos e no patrimônio culinário de seu país natal. Ao mesmo tempo, mostrou que essa mesma cozinha criativa era permeável e também recebia influências dos lugares por onde passava.

Vai daí o polvo grelhado que, no lugar das sagradas batatas, recebe cubos de mandioquinha, o tubérculo tão brasileirinho. Ou então, a moqueca de bacalhau, uma irresistível provocação. O hambúrguer de alheira com queijo da Serra da Estrela é tão irreprimível quanto, assim como o caril (detalhe: muito brasileiro nem sabia que curry tinha nome em português) de camarão.

Se Sobral seduziu os foodies, a crítica gastronômica e outros gourmands, ele não foi o único. O mundo dos petiscos e outras gulodices tem se aportuguesado sem dó !! Em outras palavras, a lista de culpados não para de crescer: a Casa Mathilde Doçaria Tradicional Portuguesa, hoje com cinco endereços paulistanos, substituiu muito pão de queijo por doces à base de gemas e açúcar na companhia do cafezinho.

Já a B.LEM Portuguese Bakery, com dez lojas, provou que é complicado resistir a uma boa bola de berlim, ainda mais quando recheada com ovos moles ou com doce de leite. A Manteigaria Lisboa, por sua vez, primeiro comprovou que todo dia é dia de pastel de nata. Então, lançou pastéis originais e . .. salgados !! O de galinhada portuguesa virou um case entre os clientes das nove unidades da marca. 
Na mesma toada, o Pirajá, um boteco de alma carioca em São Paulo, ganhou um novo hit no menu: o bolovo de alheira. Inicialmente, o ovo cozido envolto em massa empanada feita com o embutido, era servido apenas às quartas-feiras. Porém, o sucesso foi tanto que se tornou item obrigatório em suas cinco casas.
Nesse panorama, o último a desembarcar foi o premiado Joachim Koerper. Dono de quatro estrelas Michelin, o cozinheiro alemão que adotou Portugal como lar, inaugurou o gastrobar Axado. O casebre charmoso se dedica à uma recreativa culinária lusitana contemporânea, um lugar para se provar gaspacho de cereja e melancia com camarão e para compartilhar lascas de bacalhau ou patê de santola desfiada. Um lugar para se harmonizar qualquer receita com equilibrados coquetéis.

Assim, sem alardes, mas com muita deliciosidade, São Paulo vai sendo preenchida por portuguesices. Um caminho sem volta, que pode – e deve – ganhar novos e saborosos atalhos.


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