24 Ago 2018 1290
Sandra Nobre {Storyteller} www.shortstories.pt
#historia #lisboa #roteiros

Nem santos nem pecadores, turistas

Não é obrigatório ter fé, da mesma forma que nem sempre se entra numa igreja para rezar ou para confessar os pecados. Há quem vá pela beleza do lugar, pela arquitetura, pela história, pelo feixe de luz nos vitrais, pelo silêncio. Uma igreja é um monumento. Sigamos esta via-sacra.

Igreja de Santo António

É o mais conhecido dos santos portugueses, aquém e além fronteiras. Entre Portugal e Itália, reclama-se o santo para si, mas Fernando de Bulhões, assim era a sua graça, nasceu em Lisboa, andou pelo mundo e morreu perto da cidade italiana de Pádua. Por cá, é o padroeiro de Portugal, juntamente com a Imaculada Conceição, e o padroeiro de Lisboa a par de São Vicente. No dia 13 de junho, data em que se assinala a sua morte, corria o ano de 1231, é festa rija entre marchas populares, bailaricos e sardinhas assadas. Toda a moça casamenteira sabe que é a Santo António que deve pedir a graça. A igreja que presta culto ao padre franciscano foi edificada no lugar onde terá nascido, por volta de 1145 (os estudiosos não coincidem na data) sendo a cripta o lugar mais sagrado, entre o altar e a relíquia, há ainda o Museu com objetos ligados à sua vida. Depois do terramoto que dizimou a cidade, foram as crianças quem pediam pelo Santo: "Um tostão para Santo António”. Assim reuniram dinheiro para as obras. Ainda hoje não é invulgar o pregão. Há outra tradição que perdurou: o pão de Santo António. Há uma caixa de esmolas para esse fim, lembrando a dádiva do Santo, que ofertou todo o pão aos pobre e não sobrou para os frades. Eis que se dá o milagre e nova fornada aparece para gáudio de todos. Sinais dos tempo, a igreja permite donativos por PayPal e que se acendam velas através da aplicação Candla. Que diria o sacerdote com dotes de oratória destas modernices ? . ..

Largo de Santo António da Sé, Baixa 

Tel. 218 869 145

www.stoantoniolisboa.com

Foto: SingaHitam

Igreja de Santa Isabel

Um céu debaixo de outro céu. Não é uma questão de crença, a pintura do tecto da Igreja de Santa Isabel, da autoria do artista suíço-americano Michael Biberstein (1948-2013), aproxima-nos das divindades. São 800 metros quadrados a 20 metros de altura e as diferentes tonalidades da pintura convidam-nos ao exercício da contemplação. E  acalma-nos. Bibertein morreu depois de fazer as maquetes e os estudos tendo sido depois um estúdio a concluir o projeto dando forma ao devaneio do artista. Muitas vezes descritas como lugares de paz, esta igreja é esse reduto de silêncio, um espécie de paraíso terrestre, uma galeria que desvenda um edifício do século XVIII sob o olhar de um artista contemporâneo. 

Rua Saraiva de Carvalho, 2A, Campo de Ourique

Tel. 213 933 070

Igreja de São Domingos, Rossio

Se as paredes da igreja falassem podiam falar do horror a que já assistiram. Dos judeus perseguidos e assassinados ali no largo, a 19 de Abril de 1506 – agora presta-se homenagem, à porta, num monumento em memória dos milhares de vítimas e num muro que reclama "Lisboa, cidade da tolerância”. Dos hereges que seguiam para o Palácio da Inquisição ou para as fogueiras na praça pública. Do terramoto de 1755 que a derrubou quase por completo. De um dos maiores incêndios que Lisboa assistiu, a 13 de Agosto de 1959, quando o edifício pegou fogo e se perdera os altares de talha dourada, imagens religiosas e pinturas valiosas. Esteve fechada, depois, até 1994. Manteve as pedras queimadas, essa memória do fogo que castiga, entre as paredes ocres reerguidas a dois passos do Teatro Nacional D. Maria II e do bar da Ginginha. Originalmente do século XIII, sofreu diversas obras que resultaram numa mistura de estilos. Imponente, com uma única nave, foi durante muito tempo um dos maiores templos católicos de Lisboa, onde se celebravam as exéquias nacionais e os casamentos e batizados reais. Dedicada a Santa Justa e Santa Rufina, é das poucas onde ainda se podem acender velas em devoção (um ritual quase extinto, dando lugares a luzes eléctricas) em troca de promessas ou em agradecimento pelas graças recebidas. 

Largo de São Domingos, Rossio

Tel. 213 428 275

Foto: JacekPlewa

Igreja de Nossa Senhora do Loreto ou dos Italianos

Há cinco séculos que a comunidade italiana tem o seu lugar de culto em Portugal. O tecto pintado ao jeito dos grandes mestres, colorido e repleto de figuras, é lindíssimo. De Itália viera, mármores, colunas e doze estátuas dos Apóstolos, tudo financiado pelos mercadores que aqui viviam e que até 1850 entregavam à igreja entre um quarto e metade dos lucros dos negócios. Consagrada à Virgem do Loreto, conhecida como a Nossa Senhora negra, consta que o facto resultou apenas do ícone da Virgem ser pintado sobre madeira de abeto vermelho e a cor escurecida advinha do fumo das velas e lamparinas a óleo o que levava a que fossem pintadas amiúde e em algumas, quando recuperadas, consegue-se identificar diversas camadas de tinta. Mas foi assim que passou a ser conhecida. A padroeira é também a protetora da aviação. Fustigada por várias catástrofes – um incendio em 1651, o terramoto de 1755, só tendo sido reconstruída três décadas depois – a igreja sofreu obras recentes e está engalanada para as festividades que ocorrem ao longo do ano. Entre os crentes, é conhecida por ter confissões diariamente, todo o dia, e ter uma eucarística em italiano, às 11h30.

Rua da Misericórdia, 2, Chiado

Tel. 213 423 655

Programação: igrejaloreto.wixsite.com/lisboa

Foto: João Carvalho

Igreja de Santa Cruz do Castelo

N 38º42’49.10 / O 9º7’55.48”. As coordenadas levam-nos à porta do templo aberto ao público desde Junho. Depois, são mais 50 degraus até à torre sineira, onde quatro sinos de bronze do século XVIII, data de construção da igreja, tocam diariamente ao meio-dia. A vista é magnifica, com a Graça, Senhora do Monte, São Vicente de Fora, até os olhos encontrarem o Tejo e atravessarem-no em dias limpos. Sete a dez pessoas de cada vez para captar aquela imagem que cabe nos hashtags #paisagemhistórica e #apaisagemmaisencantadoradelisboa! Este foi o primeiro templo cristão construído após a conquista da cidade por D. Afonso Henriques, em 1147, assente na torre do Castelo de São Jorge, baluarte da cidadela. É possível fazer uma visita guiada à igreja e conhecer os tesouros que guarda.

Largo Santa Cruz do Castelo

Tel. 215 806 032

9h às 21h (Verão) até às 18h (Inverno)

www.torredaigrejadocastelo.pt

Foto: LaszloDaroczy_fromMiskolc_Hungary

Igreja do Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo

Os caminhos da fé podem conduzir-nos a lugares que são apenas memórias, ruínas, vestígios arqueológicos, como a Igreja do Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo, que integram o espólio das Ruínas do Carmo, classificadas como Monumento Nacional. Fundada em 1389 por D. Nuno Álvares Pereira foi destruída pelo terramoto de 1755 não voltando a ser reconstruída, no entanto, há estruturas e elementos dos séculos XIV e XV que se conservaram, como o óculo da fachada da igreja e os portais ornados com belos capitéis. É um bom pretexto para revisitar a História da cidade no Museu Arqueológico do Carmo.

Largo do Carmo, Chiado

Tel. 213 460 473

Fecha ao domingo

www.museuarqueologicodocarmo.pt


Igreja de Nossa Senhora de Fátima

Quando o sol incide sobre os vitrais as cores ganham vida, no interior e no exterior da igreja. Há algo de espetacular no jogo de luzes, uma performance silenciosa, uma liturgia contemplativa. Este foi o primeiro templo católico construído após a implantação da República, com traços modernistas, logo polémicos na época, assinados por Porfírio Pardal Monteiro, um dos mais importantes arquitetos da primeira metade do século XX. A obra arquitectónica valeu-lhe o prestigiado Prémio Valor, em 1938. Com ele uma mão cheia de artistas, como Almada Negreiros, autor dos vitrais, e Francisco Franco, que concebeu as esculturas, deram corpo ao pedido do Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, que apenas exigiu: "Ser uma igreja. Ser uma igreja moderna, Ser uma igreja moderna bela”. É bela. E continua moderna. Invoca Nossa Senhora de Fátima, o maior culto católico português. Ao dia 12 de cada mês é noite de oração, às 21h30 – se não for pela fé, é um outro olhar ao edifício, outro jogo de luzes.

Avenida de Berna, 26, Avenidas Novas

Tel. 217 928 300

8h30 às 13h – 16h às 20h

Foto: Palickap

Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes

Esta igreja marca pela diferença, no exterior e no interior. A arquitetura circular, da autoria de José Maria Dias Coelho, em que os lugares sentados estão dispostos em volta do altar central em vez dos bancos paralelos, as esculturas com a evocação dos mistérios do rosário, o retábulo principal com a transfiguração de Cristo, o sacrário num vitral de seis metros de altura, não deixam de surpreender. É preciso tempo para habituarmos o olhar à disposição do espaço. Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira dos pescadores, deu o mote para este edifício do século XXI, inaugurado em 2014, nascido do renascimento da zona oriental da cidade por ocasião do EXPO’98.  A torre com cerca de 40 metros de altura, a par do tabuleiro da ponte Vasco da Gama, ergue-se como a chaminé de um navio ancorado, como um farol que aponta o caminho. 

Passeio do Levante, Parque das Nações

Tel. 218 958 898

10h às 13h – 14h às 20h (sexta)

17h às 20h30 (sábado)

10h30 às 13h – 19h às 21h15 (domingo)

Ermida dos Jerónimos

Por fora o seu aspecto singelo não deixa antever o que nos espera no interior, uma pequena réplica do majestoso Mosteiro dos Jerónimos concebida por Diogo de Boitaca, o mesmo arquiteto que projetou o monumento manuelino que é uma referência cultural da cidade e Património da Humanidade. Edificada em 1514 nos terrenos da Cerca dos monges do Mosteiro de Santa Maria de Belém, passou a ser um local de arrumos quando estes abandonaram o local. Em 1976 foi emprestada ao culto ortodoxo russo, até que em 1978 voltou a integrar a Paróquia de São Francisco Xavier. Considerada Monumento Nacional, tem uma nave com arco triunfal a que se junta outra mais pequena e mais baixa que corresponde à capela-mor. O altar da capela de São Jerónimo é adornado com azulejos sevilhanos antigos. No alto da colina, rodeada por um jardim a cargo de Gonçalo Ribeiro Telles, nome maior da arquitetura paisagística em Portugal, é um promontório com vista privilegiada para Belém e para o Tejo.

Praça de Itália, Restelo

Tel. 213 018 648

Foto: João Martinho

Capela do Rato

Quase passa despercebida na malha urbana da cidade. O motivo que aqui nos conduz já não é o mesmo desde que o Papa Francisco nomeou, recentemente, para um dos mais importantes cargos da Cúria Romana, o padre José Tolentino de Mendonça, desde Julho, arcebispo e arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, lugar de tesouros literários e artísticos ímpares, que terá agora a missão de "zelar pelos escritos e testemunhos que os tempos nos legaram” de acordo com a missiva do Vaticano. Escritor e poeta, nascido na Madeira, habituou quem ali ia ao diálogo entre a fé e o pensamento, o sagrado e as artes e hoje e o futuro, entre crentes e não-crentes. Sem desmérito para quem agora prega a palavra, aquele continua a ser um bom local de leitura da sua obra e com ele continuar a fazer a Travessia da infância

"Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez 
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes 
do mundo

mas isso foi depois
muito depois
repito

Calçada Bento da Rocha Cabral – 1B, Rato

www.capeladorato.org




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