30 Mar 2020 516
Luís Osório / Jornalista e escritor português
#cultura #tradicao

Nós, portugueses

É difícil explicar-lhe quem somos, quase um atrevimento. Temos o Sol que conhece, mas inventámos um dos géneros musicais mais melancólicos, o fado. Fomos os que partiram à descoberta de novos mundos, mas também os que disseram mal dos que partiram. Somos generosos e um bocadinho egoístas. No fundo dos nossos fundos, somos um erro histórico, um brutal paradoxo e essa é a nossa maior riqueza, o nosso milagre.

Nos grandes artistas portugueses poderá encontrar isto que lhe conto. Já leu o poeta Fernando Pessoa? Experimente fazer a viagem pelos seus heterónimos. Sim, é verdade. Pessoa não é um poeta, são vários. Cada um com a sua personalidade, cada um com as suas fragilidades, mesquinhez e esperança.

Mesmo José Saramago, repare em alguns dos livros que nos deixou. História do Cerco de Lisboa, Jangada de Pedra ou o épico Memorial do Convento. Histórias exemplares sobre o ser português, sobre esse milagre de existirmos quando não seria suposto que o conseguíssemos sendo estes e não outros. Mas resistimos e estamos aqui. Emparedados entre o oceano e uma Espanha tão maior que nós, entre África e a Europa, terra de várias cores, país com ilhas e uma insularidade que é um grito que fere e, ao mesmo tempo, apazigua.

Já viu os trabalhos de Joana Vasconcelos? O seu cosmopolitismo construído com materiais do povo? Somos nós. Já escutou Amália Rodrigues a cantar Gaivota? A sua voz quase irreal a oferecer-nos a possibilidade de pensar sobre um perfeito coração impossível de construir? Somos nós. Já viu a pintura de Paula Rego? As suas mulheres deformadas de peso e dor? Somos também nós. Somos muito. E por vezes nada somos.

Vai gostar de nós, prometo-lhe. Tenha uma boa estadia. E faça uma excelente viagem. Que também é uma viagem para dentro de si. É aí que nos compreenderá ainda melhor, no lugar que existe depois do Sol de pôr.

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