01 Ago 2019 744
Sandra Nobre Short Stories
#dicas #experiencias

Porto: história das pontes

A Ribeira é o coração da Invicta. Daqui, partem os barcos. Daqui, olha-se para as caves em Gaia. Daqui o Douro segue o seu caminho pelo vale a que o vinho deu fama ou, em direcção à Foz, ao encontro do mar. Sobranceiras, vislumbram-se as pontes que unem as margens. São seis, cada uma com a sua história. Atravessamos?

Ponte D. Luís I

Ninguém lhe é indiferente. É a mais fotografada das pontes sobre o Douro, de acordo com uma estatística meramente ocular. De tão robusta, a ponte que chegou a ter o maior arco de  ferro forjado do mundo com 395 metros, é de uma beleza minuciosa, de recortes entrelaçado, quase filigrana se observada de perto. Obra da empresa belga Société de Willebroeck, que a deixou a cargo do engenheiro Théophile Seyrig, discípulo de Gustave Eiffel, foi  inaugurada em 1886, após cinco anos de trabalhos, ainda apenas com o tabuleiro inferior em funcionamento, dois anos depois, passaram a circular viaturas no tabuleiro superior, até que, em 2003, depois de obras de manutenção, os carros deram lugar ao metro.
Muito antes de passar a fazer parte do enquadramento da Invicta, havia outra ponte, a Ponte Pênsil também denominada Ponte D. Maria II, suspensa e a primeira ponte metálica lançada em território nacional. Inaugurada em 1842 e mandada demolir em 1887, para dar lugar a esta que arrebata quem a vislumbra ao primeiro olhar. A iluminação nocturna da Ponte D. Luís I, de um amarelo incandescente, confere-lhe um ar dramático, cinematográfico, romântico. Não chega a ser a Ponte de Brooklin, mas os seus tabuleiros carregam beijos e promessas de amor.

Ponte Infante D. Henrique

A montante, surgiu em 2003, a ponte que ganhou o nome do Infante nascido no Porto que deu novos mundos ao mundo na época dos Descobrimentos. De linhas depuradas, o seu vão do arco com 280 metros, estabeleceu um novo recorde neste tipo de construção e serviu de modelo a muitas outras pontes construídas pelo mundo fora. Com 20 metros de largura e quatro faixas de rodagem, duas em cada sentido, recebeu as viaturas que foram retiradas do tabuleiro superior da vizinha Ponte D. Luís I, aquando da chegada do metro. 
É um vaivém constante entre as Fontainhas e a Serra do Pilar, onde se acha o Mosteiro com o mesmo nome, um edifício do século XVI, emblemático no quadro da arquitectura clássica europeia, devido à igreja e ao claustro de circular. Foi a casa da ordem de Santo Agostinho, exclusivo de homens, e depois da extinção das ordens religiosas assumiu o seu papel militar, dado o papel relevante geo-militar em momentos decisivos da história, como foram as Invasões Francesas, o Cerco do Porto ou a revolta da Maria da Fonte. Está classificado como Monumento Nacional e integra a lista do Património da Humanidade da UNESCO. É um miradouro privilegiado para o cais de Gaia, o Porto e as suas pontes.

Foto: Vitor Oliveira

Ponte D. Maria Pia

Se Paris tem a Torre Eiffel, o Porto tem a Ponte D. Maria Pia igualmente assinada pelo famoso engenheiro francês. Sobre a obra disse Gustave Eiffel (1832-1923) ter sido construída "no limite das possibilidades clássicas da construção metálica”. O engenho que envolveu tornaram-na uma referência e implicou métodos revolucionários para a época. 
Tinha por missão estabelecer a ligação ferroviária entre a capital e a Invicta, actividade que cumpriu durante 114 anos. Inaugurada a 4 de Novembro de 1877, pelo casal real, o Rei D. Luís I e a rainha Maria Pia, que lhe emprestou o nome, já tinha sido atravessada antes, mal os braços metálicos se uniram completando o tabuleiro, pela mulher do engenheiro português Pedro Inácio Lopes, responsável pelos trabalhos. Adelaide Lopes inscreveu assim o seu nome na história [Caminhos de Ferro Portugueses – Esboço da História (1956)], apesar do episódio caricato quase não ser mencionado, num acto com tanto de bravura como de loucura.
A circulação de comboios seria desactivada em 1991, cedendo então o protagonismo para a Ponte D. João. Mas do alto dos seus 61 metros da linha de água ostenta o título de Monumento Nacional.

Foto: António Amen

Ponte de São João

Com uma via única e limitações de carga e velocidade, a Ponte Maria Pia foi substituída pela mais moderna Ponte de São João, a partir do dia 24 Junho de 1991, o mesmo em que se celebram as festividades do padroeiro da cidade. De betão armado, linhas minimalistas, pintada de branco, ao contrário de todas as outras até à data, não é em arco, mas em pórtico múltiplo contínuo, apoiada em dois majestosos pilares assentes no leito do rio. Faz a ligação entre a estação de Porto-Campanhã e os destino a Sul com a primeira paragem em Vila Nova de Gaia.

Foto: Liam Geoghegan

Ponte da Arrábida

Atravessada pela A1, a auto-estrada do Norte, que liga o Porto a Lisboa, ao completar a ligação entre o Campo Alegre, na Invicta, e a Arrábida, em Gaia. Concebida a jusante como travessia alternativa face ao congestionamento de tráfego rodoviário  na Ponte D. Luís I, foi a primeira grande ponte sobre o Douro erguida por técnicos e empresas nacionais, sob a responsabilidade do engenheiro Edgar Cardoso (1913-2000), também responsável pela Ponte de São João e, entre outras obras, a expansão da pista do Aeroporto da Madeira. Nos pilares que rematam a zona central do tabuleiro, que chegaram a funcionar como elevadores, apresentam-se quatro esculturas em bronze de estética modernista, dos escultores Barata Feyo e Gustavo Bastos.
O seu arco de betão armado era, à data da construção, em 1963, o maior alguma vez construído em pontes no mundo. E, desde 2016, para os mais audazes, é possível subir os 262 degraus até ao alto deste Monumento Nacional, a 65 metros do leito do rio. Daqui avista-se, na margem Norte, o edifício da Alfândega, do século XIX, onde era a praia de Miragaia, hoje um importante centro de congressos; o Museu do Vinho do Porto, num edifício do século XVIII que foi armazém vinícola; a Igreja de Massarelos, com o seu painel de azulejos azuis com as figuras do Infante D. Henrique e São Telmo, o padroeiro dos navegadores; o edifício do STCP- Museu do Carro Eléctrico, que preserva a história do icónico transporte urbano da cidade. É nesta ponte que o Douro se abre ao mar, na zona da Foz. Na margem Sul, a vila pitoresca vila de pescadores de São Pedro da Afurada, uma das mais típicas, onde a população ainda se dedica à construção e recuperação da frota naval.

Foto: António Amen

Ponte do Freixo

Na periferia da cidade, é a mais recente do conjunto de pontes, inaugurada em 1995 para resolver o problema do congestionamento de trânsito, veio completar a ligação à Via de Cintura Interna e possibilitar uma nova ligação em direcção ao Sul. Ponto de entrada e saída da cidade, com quatro faixas de rodagem em ambos os sentidos, atravessam-na, em média, cem mil carros por dia. Na verdade, são duas pontes separadas apenas dez centímetros uma da outra, ao longo dos seus 750 metros de comprimento.

São inúmeras as possibilidades para se atravessar as várias pontes – de carro, a pé, de comboio, de metro, de bicicleta, até subir por entre os pilares –, mas talvez o mais aprazível dos passeios seja de barco, desde a Ribeira ou do cais de Gaia, contemplando-as na sua singularidade, enquanto se desenham outros mapas para conhecer as cidades nas duas margens, como canta Sophia de Mello Breyner Andresen (Livro Sexto, 2014), a mais célebre das poetisas, filha da cidade:
"Um por um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão
E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas dos seus templos”

Visto do Porto, as caves anunciam-se nos letreiros: Calem, Kopke, Quinta do Noval, Sandeman, Gran Cruz, Taylor’s, Dow’s, Offley... Desde Gaia, espreita o casario colorido de traça antiga, as torres das igrejas, o centro histórico Património da Humanidade. E o Douro, onde  os rabelos, que antes faziam o transporte das barricas de vinho do Porto até às caves, dão o ar da sua graça para turista ver, vaidosos, entre embarcações turísticas onde se contam histórias da segunda principal cidade do país que continua a celebrar o título de um dos melhores destinos europeus.

Foto: Liam Geoghegan
Gostar Partilhar Subscrever