20 Fev 2020 516
Sandra Nobre Storyteller
#cultura #dicas

Porto : o que fazer em 5 dias ? Andor violeta !!

Tal como o vinho do Porto que lhe dá fama, a Invicta pede tempo para se saborear. Reserve cinco dias e vá pelos sentidos.

1º dia

O bê-á-bá do Porto pede um dicionário específico, não se trata apenas de trocar os "v” pelos "b”, o Dicionário de Calão do Porto (João Carlos Brito, Lugar da Palavra) pode revelar-se um manual de sobrevivência para melhor compreender os regionalismos usados.

Ponto de partida e de chegada, a Estação de São Bento é de paragem obrigatória. Classificada como Imóvel de Interesse Público, desde 1997, ostenta uma singular coleção de azulejos, mais de 20 mil, produzidos na histórica Fábrica de Sacavém. Agitam-se guarda-chuvas fechados ou outros adereços que chamem a atenção para concentrar os grupos de turistas e partilhar um pouco de história. Os murais de Jorge Colaço representam diferentes episódios históricos, que são reproduzidos, todos os dias, em fotografias, vídeos e stories nas redes sociais.

Tomemos as artes como fio condutor, sem medir distâncias, afinal, nada é assim tão longe. Comece no Museu Nacional Soares dos Reis, o primeiro museu público do país, fundado em 1833. Localizado no Palácio das Carrancas apresenta uma coleção de pintura, escultura e artes decorativas. 

Depois da visita, páre para respirar entre tílias e plátanos, nos Jardins do Palácio de Cristal, antes de seguir para a Rua Miguel Bombarda, no Quarteirão das Artes, onde se concentram muitas das galerias da cidade, conhecidas por orquestrarem inaugurações em simultâneo. A Galeria Fernando Santos foi pioneira, há 25 anos. Há ainda livrarias, casas de chá, restaurantes e o Centro Cultural Bombarda para explorar. Visite a loja do Museu do Estuque, que deu nova vida a esta arte milenar da cidade, com objetos decorativos. 

Próxima paragem: a Fundação de Serralves. O Museu, da autoria de Siza Vieira, é morada da arte contemporânea, da década de 60 do século passado até à atualidade. Não perca a exposição permanente dedicada a Manoel de Oliveira, nome maior do cinema português. Espreite a loja do museu para um presente original. Continue pelo Parque de Serralves, se puder agendar, experimente a visita guiada pelo Treetop Walk, o passadiço entre a copa das árvores, que dá a conhecer a biodiversidade do parque. 

O Mercado do Bom Sucesso convida a petiscar. Veja antecipadamente a programação da Casa da Música, o edifício desenhado por Rem Koolhaas tem uma acústica impressionante. Se for adepto de futebol e for dia de jogo, opte por viver todas as emoções na bancada do icónico Estádio do Dragão. Não se esqueça da camisola ou do cachecol, para estar vestido a rigor.

Fotos: I Stock; Shutterstock e Visit Porto and North

2º dia

Em qualquer destino, há dias que devem ser apenas de deleite. Sem ordem específica, deixe-se ir pelos sentidos. Prove os chocolates da Arcádia (Rua do Almada, 63), uma das mais antigas casas de chocolates em Portugal. Uma genuína experiência gourmet é fazer compras n’ A Favorita do Bolhão (Rua Fernandes Tomás, 783), uma mercearia das antigas com cheiro de café e bolachas e as embalagens têm um ar vintage; ou a Casa Januário (Rua do Bonjardim, 348) com vitrinas cheias de produtos tradicionais. Às refeições, entregue-se às mãos dos chefs com estrela Michelin, são várias as opções: Pedro Lemos, na Foz; Antiqvvm, de Vitor Costa, em Massarelos; fora da cidade, a Casa de Chá da Boa Nova, de Rui Paula, em Leça; ou o Yeatman, de Ricardo Costa, em Vila Nova de Gaia. Ou fique pelos clássicos, as sandes de pernil da Casa Guedes (Praça dos Poveiros, 30), a francesinha na Brasão Cervejaria, nos Aliados, ou as tripas à moda do Porto, n’O Rápido, junto à estação de S. Bento.

Se tiver mais olhos que barriga, os sítios que lhe vão encher o olho vai ser a vista do cimo da Torre dos Clérigos, a fachada de azulejos brancos e azuis da Capela das Almas, em Santa Catarina, as prateleiras de livros, a escadaria e todo o interior Art Déco da Livraria Lello, que serviu de inspiração às aventuras de Harry Potter, ou o Salão Árabe do Palácio da Bolsa. E se tudo o que brilha é ouro, visite a Elements – Contemporary Jewellery, na Rua das Flores, um os bons exemplos de recuperação de um edifício histórico e do saber fazer da joalharia portuguesa. Para acabar o dia em beleza, na centenária Claus Porto, pode comprar sabonetes artesanais embrulhados à mão, fragâncias extraídas da flora portuguesa (formatos travel) ou entregar-se ao ritual da barba. 

Deixe tempo para se perder nas ruas, descer à Ribeira e sentar-se numa qualquer esplanada a apreciar o burburinho citadino. É nestes momentos que se conhece verdadeiramente a alma dos lugares.

Fotos: I Stock; Visit Porto and North

3º dia

Um dia é pouco para conhecer o Alto Douro Vinhateiro, a região classificada como Património da Humanidade pela UNESCO, desde 2001, mas dá para matar a curiosidade. Embarque num passeio para contemplar da paisagem que desafia a perícia dos homens que aí produzem vinhos em socalcos, avistar as casas senhoriais e quintas onde nasce o néctar e, pelo meio, saber a história dos que fizeram a História, como a Ferreirinha. Pode navegar entre o Porto e a Régua ou o Pinhão, num dos sentidos, e juntar a viagem de comboio, outra experiência imperdível. Em cruzeiro turístico ou optar por uma viagem exclusiva num luxuoso iate. 

4º dia

Ir ao Porto e não atravessar o rio para visitar as caves em Gaia é como ir a Roma e não ver o Papa. É obrigatório e é prazeroso. Pode atravessar a pé a Ponte D. Luís I para apreciar a vista ou sobrevoar os telhados das caves no Teleférico de Gaia

Mergulhe na história da primeira região vinícola demarcada do mundo, o Douro, instituída em 1756, no mesmo ano em que surgiu a Real Companhia Velha, que agora se apresenta com o moderno 17.56 - Museu e Enoteca, a juntar às caves, um dos spots do momento na margem esquerda do rio Douro.

Em todas, à visita junta-se a prova do vinho cuja fama leva o nome da cidade pelo mundo. Há uma mão cheia de opções para visitar: Cálem, Kopke, Quinta do Noval, Sandeman, Gran Cruz, Croft, Taylor’s, Down’s, Offley, Cockburn’s, Ramos Pinto, Poças, Ferreira . .. Muitas têm cafetaria e/ou restaurante para ganhar fôlego entre uma visita e outra.

Guarde a Graham’s, da família Symington, produtores desde o século XIX, para o fim, se a ocasião pedir um brinde especial. Atreva-se num cálice de Ne Oublie, um Porto que remonta à chegada de Andrew James Symington a Portugal, em 1882, e que chega aos dias de hoje em três barris que representam a herança de um saber ancestral. Um dos barris está na origem de 656 garrafas deste néctar que se pode provar a copo, por 600,00€. A garrafa custa cerca de 7000,00€. Não há como esquecer.

Fotos: Visit Porto and North

5º dia

E que tal deixar-se ficar a recuperar energias antes de seguir viagem? O PortoBay Flores, junção de um palacete do século XVI e um edifício do século XXI, de cores clara e cheio de luz, convida a descansar. Traga o livro que anda a ler para o pátio interior, junto à capela barroca, do século XVIII, e deixe-se contagiar pelas vibrações da fonte. A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen casa bem com a Invicta.

Seja uma refeição leve ou uma bebida, no bar Os Maias, em ambiente descontraído, seja um almoço ou jantar no Bistrô Flores, outrora o salão nobre do edifício, sentir-se-á sempre em casa. O spa Mandalay de inspiração asiática é quase outra viagem. Eu cá, nem punha os pés no ginásio . .. 

Para espíritos mais inquietos, o PortoBay Teatro, onde em 1859 nasceu o Teatro Baquet, é marcado pelas cores fortes e o ambiente intimista. No restaurante Palco serve-se comida de conforto. A densidade das obras de Agustina Bessa-Luís, outro dos nomes, que o Porto não esquece, pode ser uma boa companhia.
Um e outro hotel, estão na Baixa da cidade, e quando se caminha por ali, as expressões saem-nos ao caminho : andor violeta! Que é como quem diz: põe-te a andar! Vá mas volte, ainda ficou tanto por visitar. .. 
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