24 Set 2019 602
Sandra Nobre Short Stories
#dicas #experiencias #gastronomia

PortoBay Flores: Se a curiosidade matasse . ..

Depois de duas décadas votada ao abandono, a agora movimentada Rua das Flores vai ganhando novos habitantes. O PortoBay Flores acabou de abrir portas. Melhor do que um hotel a cheirar a novo, é percorrer cinco séculos de história ao longo de um corredor. A vista é um bónus.

Pausa

Partilho com Paul Theroux a excitação de qualquer viagem e não preciso de embarcar, literalmente, n’ O Velho Expresso da Patagónia. "Era evidente que naquela carruagem de metropolitano um de nós não ia para o trabalho. Notava-se imediatamente pelo tamanho da mala. (...) a manhã era perfeita para partir rumo à América do Sul. Para alguns era o metro para a Sullivan Square, a Milk Street ou, quando muito, Orient Heights; para mim, era o comboio para a Patagónia.” Há dias em que basta embarcar em Santa Apolónia e seguir para Norte. E pela mala percebe-se que não vou para o trabalho.
Gosto de chegar ao Porto de comboio e fazer aquela pequena mudança necessária para completar a ligação até à estação de São Bento. Não há uma única vez que não me detenha a contemplar os painéis de azulejos azuis, de Jorge Rey Colaço. Aquela tela gigante, porque foi assim que foram pintados, como um quadro, a tinta sobre o azulejo vidrado e cozido, uma inovação para a época. Vinte mil azulejos, instalados entre 1905 e 1906, na estação ainda provisória e que só viria a inaugurar a 5 de Outubro de 1916. As cenas épicas, como a conquista de Ceuta pelo Infante D. Henrique, no século XV, são fotografadas diariamente e descritas em todas as línguas a grupos de turistas que se misturam com os utilizadores urbanos. Daqui, é só atravessar e alcança-se a Rua das Flores. 

14h00 Check In

No número 27, o novo PortoBay Flores, de um amarelo vistoso, chama a atenção. Não vou a negócios, vou em lazer.  Não é a Patagónia, é o Porto. Continuando com o pensamento de Theroux: "Viajar é desaparecer, uma incursão solitária por uma estreita linha geográfica até ao esquecimento.” Experimentem não ver nenhum canal noticioso na televisão e já não importa o lugar, o país. O esquecimento é essa pausa na vida, na rotina, no trabalho, nos acontecimentos, fazer do hotel o destino, ir sem outros programas definidos, com um livro ou dois, e entregar-se aos pensamentos e ao momento, a incursão solitária.
Entro num palacete do século XVI para o check in, onde outrora eram as cavalariças, e um corredor ladeado por dois feixes de luz conduz-me a um edifício do século XXI, uma viagem no tempo por uma estreita linha geográfica que separa 500 anos de História. O hotel manteve a identidade da Casa dos Maias, a última família a habitar a casa senhorial, que lhe deu origem, também conhecido por Palácio dos Ferrazes, e juntou-lhe a modernidade da cidade que está na rota do turismo mundial.
O quarto 803, no último piso, é um duplex, com um terraço debruçado sobre a Invicta, que convida a ficar. Um upgrade na viagem.

14h30 Pausa

Uma refeição leve no bar Os Maias, em ambiente descontraído, donde aprecio o entra e sai de gente que fala todas as línguas. Um casal mais velho de aspecto singelo aproxima-se da porta de vidro automática e atreve-se a dar dois passos para apreciar o interior. "Ficou bonito”, diz a mulher. Ele demora-se mais na observação: "Souberam conservar o que aqui estava. Andam para aí a destruir tudo e fazer novo...”. Saem satisfeitos, mesmo sem passarem do lobby. Ainda conseguiram ver a escadaria em lajes de granito original que o arquitecto Samuel Torres de Carvalho preservou, mas se tivessem subido um patamar encontrariam também o forno da cozinha e os azulejos  de outrora. E o segredo mais bem guardado é a capela barroca, no pátio interior, do século XVIII, atribuída ao italiano Nicolau Nasoni que escolheu o Porto para deixar o seu legado até ao fim dos seus dias, sendo responsável por intervenções na Sé do Porto, a Igreja e Torre dos Clérigos, o Palácio do Freixo e a Igreja da Misericórdia, a meia dúzia de passos do hotel. 
No pátio, a fonte soa como as vibrações emitidas pelas taças tibetanas e o efeito é terapêutico, convida a meditar ou à leitura, alheio ao bulício do exterior. Nem dou pelo passar das horas.

18h00 Cuidar do corpo e da mente

Raras vezes os ténis do ginásio me acompanham, porque são mais as que não lhes chego a dar uso, do que as que soou as estopinhas. Desta vez tento juntar algum equilíbrio na estadia e o exercício físico faz parte do programa. A sala está bem equipada e a música nos ouvidos incentiva a aumentar o ritmo na elíptica.  Quinze minutos. Vinte. Trinta. Chega! Troco as calças de lycra pelo fato-de-banho, o ginásio pela piscina interior. O som da água é música para os ouvidos e vai continuar quando encher a banheira – outra prática igualmente rara, podia dizer que é para poupar água, mas a verdade é que na gestão do tempo, nunca é oportuno, nunca sobra para este prazer momentâneo. Como canta Rita Lee: "Que tal nós dois/ Numa banheira de espuma/ El cuerpo caliente/ Um dolce far niente/ Sem culpa nenhuma...” Ainda que seja uma só, é sem culpa nenhuma por aproveitar cada momento.

20h30 A arte da mesa

Entre as experiências solitárias de viagens, os momentos à mesa são aqueles que a maioria dispensa, muitas vezes preferindo uma refeição rápida, um qualquer pronto a comer ou uma sandes no quarto. Mas quem escolhe restaurantes com o mesmo critério dos museus, vale a pena passar pelo desconforto de não ter com quem partilhar a refeição ou conversar, pelo prazer de saborear cada prato. 
As ementas, hoje, são momentos de storytelling. No elegante Bistrô Flores, outrora o salão nobre do edifício, a literatura deixa adivinhar uma composição de sabores combinados com mestria. Venha de lá o queijo de Azeitão com broa de Avintes, a sopa de tomate – que dava um belo quadro às mãos de Andy Warhol –, o polvo assado com limão e tomilho, puré de batata doce e citrinos, um copo de vinho do Douro, a acompanhar, o mil folhas de banana e caramelo, para finalizar. Uma selecção digna de um curador. Sem pressa. Sem desconforto. Puro deleite.

22h00 Outros menus

O quarto 803, no último piso do novo edifício contíguo que aumentou a capacidade do PortoBay Flores, proporciona uma panorâmica sobre a cidade: a Sé, o casario, o rio, de relance, as caves de vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, a torre da Igreja da Misericórdia. É noite de lua cheia. Aprecio o cartão postal desde o alto. 
Quantas pessoas são precisas para fazer uma pijama party? Creio que eu e a garrafa de vinho, cortesia da casa, somos suficientes para fazer a festa. Música ou televisão? Num rápido zapping pelo menu televisivo detenho-me no filme que mais me fez reflectir sobre onde começam e acabam as viagens solitárias: Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho, de Sofia Coppola. É perfeito para completar o programa da festa.
Há ainda dois menus que me abrem sempre o apetite: o menu de almofadas e o do pequeno-almoço servido no quarto. Se no primeiro não hesito perante a Visco-Elastic, que permite uma sensação de flutuação, forma anatómica correcta, alívio de dores, redução da insónia, no segundo, divido-me entre as opções do Continental e À La Carte – torradas, omelete de queijo, fruta laminada, panquecas com xarope de ácer, café. Junto ao pedido o "Do not disturb” e adormeço embalada pela leitura até à última página: "Chegara à Patagónia, e fiquei a rir quando me lembrei que tinha vindo até ali de Boston, no comboio que as pessoas apanhavam para ir trabalhar”. Hoje, o Porto, amanhã, o mundo.

09h55 Despertar

Não são 10h, são 9h55, quando o sino da igreja toca. Sempre a hora incerta, como se quisesse chamar a atenção ou prevenisse um qualquer atraso. O pequeno-almoço servido no quarto chega logo a seguir. Corro as cortinas e abro a janela para deixar entrar a manhã. É dia de semana e eu espreguiço-me no terraço já o sol vai alto. Há compromissos na agenda não tarda. Apanho o elevador de robe e chinelos. 

11h00 Encurtar caminho para a Ásia

O spa Mandalay traz a música, as terapias, os aromas e os óleos do Sudeste Asiático.para as três salas de tratamento do hotel. Seguem-se 55 minutos de uma busca interior do equilíbrio entre corpo e mente. Baseada na antiga sabedoria Ayurveda, a massagem abhyanga, explora os rituais sundãri para sintonizar o eu interior, a partir do ritual de pés de boas-vindas até à massagem rítmica com óleos quentes para estimular a energia vital. Não é a mesma viagem de Alberto Moravia, em 1961, que o inspirou a escrever Uma Ideia da Índia, mas é o mesmo princípio de descoberta.  
"E o que é a Índia!
(...) Eu também não sei verdadeiramente o que é a Índia. Sinto-a, é tudo. Também tu deverias senti-la.
O que queres dizer?
(...) Deverias senti-la, lá longe, a oriente, para lá do Mediterrâneo, da Ásia Menor, da Arábia, da Pérsia, do Afeganistão, lá longe, entre o Mar da Arábia e o Oceano Índico, onde está e te aguarda.
Aguarda-me para fazer o quê?
Para não fazer nada.”

12h00 Mudar de planos

Quando se aproxima a hora do check out instala-se a urgência da partida. Ou não. E se, com a mesma espontaneidade com que se apanha um comboio sem ser para ir trabalhar nos decidamos a demorar-nos mais num destino? A mala entreaberta à espera. É tempo de descobrir o Porto: a livraria Lello – tantos livros que nos fazem viajar para outras paragens –, o recém inaugurado Treetop Walk em Serralves, um passeio verde que se estende por 250 metros ao nível da copa das árvores, as galerias da Rua Miguel  Bombarda, comer um cachorrinho do snack-bar Gazela... O amanhã também pode esperar, diz-se. Por hoje, não vou apanhar nenhum comboio.
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