09 Mar 2016 672
#brasil #experiencias #riodejaneiro

Circulando pelo Rio...

Olhe para a esquerda e para a direita, e agora para cima, depois para baixo. Pode até tapar os olhos, bater o pé, renegar pai e mãe, mas vai ter que concordar : o Rio é uma cidade maravilhosa !! Poucas paisagens urbanas no mundo misturam de forma tão sublime, o azul do céu e do mar com o verde exuberante da natureza. As perspectivas renovam-se a cada esquina. Do alto do Corcovado ou da Vista Chinesa, a paisagem abre para o Atlântico, demorando o olhar nas enseadas, praias e ilhotas da Baía de Guanabara, nos morros cobertos pela Mata Atlântica, na arquitectura bipolar da cidade. Arranha-céus aqui e favelas acolá. 

A perspectiva inversa, ver o Rio de fora para dentro, é a maior atracção para quem sobe no bondinho até ao Pão de Açúcar. Continuando nas alturas, vale a pena fazer um passeio de helicóptero para ter uma panorâmica mais abrangente deste delírio da natureza domesticado pelo homem. A Lagoa Rodrigo de Freitas, entalada entre Ipanema e os morros, é um dos pontos de partida dos voos e um circuito imperdível para os adeptos da boa forma. Outra excelente opção de vida saudável é a Floresta da Tijuca, 3300 hectares de diversão ao natural, onde além da abundante fauna e flora encontra trilhos e cascatas, lagos e pontos de piquenique, o Açude da Solidão ou a capela Mayrink. 

Seguindo a rota do verde, o Jardim Botânico com as suas alamedas de árvores centenárias, canteiros, estufas e lagos é uma magnífica viagem sensorial e científica. Agora, para algo completamente diferente, entre na rota do tempo e faça um raide até ao centro histórico. Apanhe depois o velho bonde que passa sobre os Arcos da Lapa e sobe, gemendo e engasgando-se, as bucólicas colinas do bairro favorito dos artistas, Santa Teresa. 

Sente o poder e a energia desta cidade? Então supere os medos e tome uma atitude radical. O Rio é a cidade perfeita para abrir asas e planar ao sabor do vento. Partindo da rampa da Pedra Bonita, lance-se num voo duplo de asa-delta, extasie-se com a visão e esqueça por alguns instantes a força da gravidade que o fará aterrar na praia de São Conrado. A felicidade não tem preço, mas tem endereço : 21000-000 Rio de Janeiro.

Há muito tempo nas águas da Baía de Guanabara...

No Rio de Janeiro cada taxista é um historiador em potência, versado em D. João VI e na questionável beleza de sua mulher Dona Carlota Joaquina. Se para os portugueses o então Príncipe Regente nos deixou à mercê de Napoleão, para os cariocas o soberano é um ícone. 

A 7 de Março de 1808 a família real portuguesa e respectiva corte ancorava no Largo do Paço do Rio de Janeiro, hoje praça XV de Novembro (dia da implantação da República, em 1889). Este capítulo da história dos dois países foi responsável pela transformação do Rio, baptizado pelos portugueses, em 1502, como São Sebastião do Rio de Janeiro. Seria pois no princípio do século XIX que esta cidade (à data capital do Brasil) inspiradora de infinitos poemas teria a sua apoteose. 

A paixão de D. João pelo Rio depressa se fez sentir com a instalação da Real Biblioteca, com a criação do Jardim Botânico e do Teatro São João ou com a chegada da missão artística francesa, em 1816. Isto para não falar do incentivo à produção industrial, da instituição da Junta do Comércio, da Casa da Moeda e do Banco do Brasil. É no centro que se encontram vestígios do colonialismo e do Império. Comecemos pelo Mosteiro de São Bento (1590), cujo barroco e rococó atrai um sem número de turistas. Se a Avenida Rio Branco se tornou o centro de negócios, nas imediações há vestígios da arquitectura colonial nos coloridos sobrados (casas de dois pisos com varanda). 

Menção especial para o número 13 da Travessa do Comércio, onde viveu Cármen Miranda, ou para a Praça XI, onde terá nascido o samba. No Paço Imperial, além de outras histórias, conta-se a lenda que deu origem à expressão "Maria vai com as outras”. Ao que parece, a braços com a loucura, a rainha D. Maria I gostava de fugir nua para a rua, sendo de imediato cercada pelas suas aias. 

Mas no Rio há sempre mais do que uma versão da mesma história...descubra a sua!!

Eu sou do camarão, ensopadinho com chuchu!!

Os botequins são a maior instituição gastronómica do Rio de Janeiro, segundo Guilherme Studart, autor do guia Rio Botequim. É neles que está tutelada a cultura tipicamente carioca e o atendimento familiar, a que se soma o bolinho de bacalhau, a cerveja estupidamente gelada ou a capirinha para gente de havaiana no pé. 

Para uma refeição romântica nada melhor que o Zozô, cuja envolvente é um dos mais belos postais do Rio, o Pão de Açúcar. Num ambiente onde o velho e o novo se cruzam, o chefe Marcelo Tanus apresenta apontamentos de cozinha internacional que podem ser acompanhados por um dos 300 títulos nacionais representados na adega da casa. Tudo perfumado com muita MPB. Com conceitos importados de São Paulo, o Astor e a pizzaria Bráz já se integraram no espírito carioca. Se o primeiro segue a linha boémia dos anos 50, a Bráz está tão na moda que não se admire se cruzar o olhar com um(a) gato(a) das telenovelas. 

Clássicos incontornáveis são o Gula Gula, cujas saladas têm fama, e o Nova Capela, a funcionar na Lapa desde 1923. Outra tradição é a comida de rua. Da praia ao centro, as carrocinhas de comida e os camelôs vendem desde queijo de coalho a sushi sem esquecer o afamado pastel e um sem fim de bebidas tropicais, onde não falta o guaraná e a água de coco. 

Uma viagem gastronómica ao século XIX é a Confeitaria Colombo, onde pode provar bolo de fubá com queijo, entre outras delícias, numa atmosfera de salão.

Saracoteando daqui pra lá...

Apesar de a praia ser uma tentação sempre presente, o Rio é um poço de cultura com dezenas de centro culturais. E fazendo jus à democracia da cidade, há vários pólos grátis. Comecemos pelo Centro Cultural Banco do Brasil, onde encontra das artes cénicas, às plásticas, sem esquecer a música. Situado na Gávea, o Instituto Moreira Salles contém no seu acervo mais de 550 mil imagens do século XIX, a maior parte consagradas ao Rio de Janeiro. 

Através de uma pitoresca viagem de bondinho, o bairro de Santa Teresa é imperdível pelos seus casarões de arquitectura espanhola, pelas inúmeras galerias de arte e lojas que misturam artesanato e design. Depois de passar pelo mirante do Parque das Ruínas é obrigatório visitar a Chácara do Céu, casa museu que ostenta a colecção particular de Raymundo Ottoni de Castro Maya : a soma perfeita da arte contemporânea com mobiliário colonial dos séculos XVII e XVIII, a que se junta a luxuriante atmosfera circundante. Descendo de novo até ao centro não deixe de admirar a megabiblioteca do Real Gabinete Português de Leitura e respectiva arquitectura neomanuelina.

Perto da Cinelândia, outrora conhecida como a Broadway do Rio, recomendamos uma visita ao Theatro Municipal, ex-líbris da cidade cujo palco já foi pisado por Fernanda Montenegro, Enrico Caruso e Maria Callas, entre outras estrelas. Para sentir este gostinho centenário restaurado em 2009, o ideal é uma visita aos bastidores, ciceroneada por um belo sorriso carioca.

Ritmo é samba, marchinha e saracoteio!!

Na cidade maravilhosa – cognome consagrado numa canção de 1935, do compositor André Filho – o ritmo é samba, marchinha e saracoteio. Do rumorejar das ondas do mar, ao das folhas das árvores, do bamboleio de quadris do camelô, ao bater de pé da gatinha na praia de Ipanema, ouvindo o seu iPod de última geração, tudo é feito do balanço e da cadência que vive dentro de cada um. Quanto à música propriamente dita, do samba ao rock, da bossa nova ao funk, da marcha ao rap, os compositores cantam e tocam o Rio de Janeiro em diferentes épocas e géneros. Recuando aos primórdios, encontramos o chorinho, que chegou com a família real portuguesa no século XIX. Tradicionalmente instrumental e urbano, era o retrato do Rio e dos seus bairros. Mais tarde, com a libertação dos escravos (1888), chegaram à cidade os negros baianos e com eles a roda do samba que se entranhou nas gentes cariocas para nunca mais sair. Outro género com génese carioca é a bossa nova, que surge em 1958 como uma nova maneira de encarar o samba. O eterno "Desafinado”, composto pelo maestro do movimento, António Carlos Jobim, e interpretado pelo génio de João Gilberto, popularizou o termo retirado do verso : "isto é bossa nova, isto é muito natural”. O amor, o mar e a mulher amada são os temas maiores nas letras saídas da pena de Vinicius de Moraes. 

 

Artigo adaptado da revista UP (TAP Portugal). 

Fotografias de Pedro Kirilos, Alexandre Macieira, Ricardo Zerrenner (Riotur) e PortoBay.

 

 

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