17 Jul 2018 1042
Sandra Nobre {storyteller} www.shortstories.pt
#in-hotel #lisboa #portobayliberdade

Um dia no PortoBay Liberdade

Quando nos instalamos num hotel fazemos desse um local apenas de partida e de chegada, entre tudo o que queremos visitar no destino, ou instalamo-nos como em casa e usufruímos do que oferece, alheios às ofertas culturais e às novidades citadinas ? Por vezes, o hotel pode ser uma ilha donde não apetece sair. Foi assim no PortoBay Liberdade . ..


13h15 . Almoço executivo

Homens de fato discutem política, desenham estratégias e planos de negócio, fecham contratos à mesa do Bistrô4, entre a sugestão do dia e o copo de vinho – também há mulheres executivas, mas essas misturam o prazer com os negócios e não prescindem da  sobremesa e/ou o chocolate com o café para adoçar o dia.  Depois há os outros, em versão casual friday, seja qual for o dia da semana, que traçam roteiros culturais sem esquecer os spots para compras, enquanto trocam likes nas fotografias que publicam nas redes sociais partilhando com o mundo o que comem, onde estão, com quem estão. Visto assim, os viajantes solitários tornaram-se uma espécie em extinção por conta do wifi. Nunca estamos sós.

14h00 . Dar a volta ao quarteirão e mais umas ruas

Basta atravessar a rua, a Casa-Museu Medeiros Ferreira está na esquina em frente, recriando a vivência do seu fundador, alberga uma coleção de arte ímpar com mais de duas mil peças expostas, do mobiliário à cerâmica, da relojoaria à pintura. Mais duas ruas, chega-se à Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, fundada nos anos 50, promove a conservação e o conhecimento do património cinematográfico. As exposições levam-nos ao encontro dos espetáculos de sombras e da lanterna mágica, revisitando a evolução do cinema e espreitam-se os bastidores de filmes em mostras temporárias. Em cartaz, ciclos de realizadores, retrospetivas de obras e clássicos para recordar. Desço à Avenida da Liberdade, que já foi Passeio Público, e desfilo entre as montras como se assistisse a um desfile das grifes internacionais– Louis Vuitton, Gucci, Zadig & Voltaire, Miu Miu, Prada, Emporio  Armani, Carolina Herrera, Hugo Boss, Ermenegildo Zegna, as multimarcas Stivali ou Fashion Clinic. Já a chegar aos Restauradores, subo no elevador da Glória até ao Miradouro de São Pedro de Alcântara para contemplar a Lisboa castiça da Mouraria, Alfama, Graça, Castelo. Ups, quase 17h, é hora do chá, como Catarina de Bragança ditou, a acompanhar os scones, um bom motivo para regressar ao hotel.

18h00 . Uma pausa para respirar: o spa

Muitas vezes as pessoas esquecem-se o quanto um sorriso pode ser terapêutico. Aqui no spa fazem-nos sentir bem à chegada. Seguimos para o ritual. As salas de tratamento têm nomes de plantas exóticas – ylang ylang, frangipani, rosewood. A luz é ténue e isso acalma-nos. Durante 55 minutos entrego-me numa Desktop Recovery, ideal para quem sofre de tensões e contracturas, resultado de longas horas passadas ao computador. Com a massagem que alivia as dores musculares combinam-se estiramentos para ajudar na elasticidade e corrigir a postura. A massagem ayurvédica ao rosto e couro cabeludo, com aroma de gengibre, lavanda, rosmaninho e pimenta preta, liberta-nos de todos os pensamentos. O som das taças tibetanas traz-me de volta à realidade. É tempo de um chá de menta e limão na sala de relaxamento, para prolongar a experiência. Apetece ficar ali o resto da estadia. E se houvesse um quarto instalado no spa ? Imaginam como seria ? Uma ilha dentro da ilha, pudesse ser eu o seu único habitante . .. Sem pressa, divido-me entre a sauna e o banho turco, antes de mergulhar na piscina interior. Não importa se é Verão ou Inverno, se o dia está ventoso, por aqui, a temperatura é perfeita.


19h45 . O voo entre o Rooftop e o Aviator6

"As colinas, por baixo do avião, rasgavam já o seu sulco de sombra no ouro da tarde. As planícies tornavam-se luminosas, mas de uma luz inutilizável: neste país, são lentas a abrir mão do seu dourado (...)” (Voo Noturno, Antoine de Saint-Exupéry). A luz reflete-se nas vidraças dos prédios em volta. No sétimo piso vislumbra-se a cidade que espreita entre a copa das árvores e os telhados. Há espreguiçadeiras para acompanhar o ato contemplativo e um jacuzzi para quem quiser experimentar outras águas. No bar servem-se cocktails com música chill out, apesar do vento pouco convidativo. "Já se ouve uma música de órgão: o avião.” (Voo Noturno, Antoine de Saint-Exupéry). Em seguida, aterro no piso térreo. O bar Aviator6 dá o mote para o welcome drink que tinha reservado para antes do jantar. Uma flute de espumante e entro em piloto automático.

20h30 . Paris-Lisboa-Funchal

Está um casal francês duas mesas ao lado – não lhes ouvi a fala grande parte da noite, mas é a elegância cinematográfica que deixa perceber a origem. Em par, outro casal menos óbvio, ele louro de porte avantajado, ela negra de uma beleza exótica, falam alemão entre si. Em frente um casal inglês, ela com uma mola a prender o cabelo desgrenhado, os sacos de compras ao lado da mesa, ele igualmente informal. Por momentos, esqueço onde estou. O lugar à minha frente vazio, um copo de vinho a acompanhar a refeição. Eis que chega a sobremesa, o culminar da viagem gastronómica que reúne três cidades no mesmo prato: de Paris a massa choux, de Lisboa o creme do pastel de nata, do Funchal o bolo mel. Há tantas formas de viajarmos.

22h00 . Contar estrelas na varanda

" – E como é que se pode ter estrelas?

– De quem são elas? – ripostou, agastado, o homem de negócios.

– Não sei. De ninguém.

– Então são minhas. Fui o primeiro a pensar nisso...

– E isso basta?

– Claro que basta! Se tu achares um diamante e ele não for de ninguém, passa a ser teu. Se tu achares uma ilha e ela não for de ninguém, passa a ser tua. Se tu fores o primeiro a ter uma ideia, tiras-lhe a patente: é tua. Pois eu tenho as estrelas porque, antes de mim, nunca ninguém se tinha lembrado de as ter.

– Lá isso é verdade! – disse o principezinho. – E o que fazes tu com elas?

– Administro-as. Conto-as e torno a contá-las  – disse o homem de negócios. – É difícil. Mas eu sou um homem sério!” (O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry)

A noite já se instalou. É difícil vislumbrar as estrelas entre as luzes da cidade, mas as mais brilhantes deixam-se ver. Não me canso deste espetáculo. Não as conto, administro-as nos pensamentos, como se estivesse perto delas. Quando entro no quarto, leio no menu de almofadas: "Sinta-se nas nuvens”. É por lá que fico quando deito a cabeça numa almofada visco-elastic, com o interior com espuma memory que permite uma sensação de flutuação e, entre outras qualidades, reduz a insónia. Deixo-me embalar no sono rumo ao asteroide B612, talvez encontre o pequeno príncipe por lá.

10h10 . Pequeno-almoço tardio

Ficava bem dizer que já passei uma hora no ginásio ou que calcei os ténis para uma corrida matinal, mas se há uma palavra que vai bem com as primeiras horas da manhã é "preguiça”. Somemos as calorias possíveis entre sair da cama, a ida à máquina do café, a seis passos, junto à televisão, mais quatro passos até ganhar coragem para correr as cortinas e fazer a saudação ao sol na varanda do quarto, outros tantos, mais oito passos até ao duche e outros dez entre as indecisões do que vestir. É só fazer as contas . .. São 10h10 e a adivinhar pelo movimento do Bistrô4, a sala de refeições por excelência do PortoBay Liberdade nas várias horas do dia, a maioria já saiu para calcorrear a cidade. Fico a amanhecer no pátio, deixando a brisa fresca acordar-me, entre o sumo detox, a fruta fresca, o pão sem glúten, os ovos mexidos, o queijo fresco, o café. Agora sim: bom dia. E tanto que há para fazer na cidade assim se queira sair da ilha. Ou não.

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