20 Jul 2017 1435
Sandra Nobre {Jornalista} www.shortstories.pt
#doces #gastronomia #lisboa #tradicao

Um roteiro doce pelos arredores de Lisboa

Passámos de um tempo em que os doces se confeccionavam nos conventos, seguindo receitas antigas, com muitos ovos e mais açúcar ainda, para a tirania das dietas, em que chega a ser pecado atrever-se na fruta. Mas, contra ventos e marés, esta herança secular da doçaria tradicional chegou aos nossos dias intacta, em tantos lugares de culto que dão origem a romarias para os degustar. Outras receitas ganharam fama sem se lhes conhecer ao certo a origem e passaram a andar nas bocas do mundo. Em comum, uns e outros, têm os segredos que permanecem entre os deuses e que são a alma do negócio. Junte-se-lhes uma ginginha, um Moscatel ou um Porto para um final feliz. Já diz o ditado "perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe”.  Em Lisboa e arredores, 10 experiências sensoriais.

Pastéis de Belém

Desde 1837 que se confeccionam aqueles que são os pastéis mais afamados de Lisboa. Únicos no sabor, que os distingue dos tradicionais pastéis de nata, já que a sua receita está patenteada e confinada à "oficina do segredo”, onde apenas os mestres pasteleiros a conhecem e estão obrigados por contrato a não revelá-la. Assim, chegou aos nossos dias a iguaria que os clérigos do Mosteiro dos Jerónimos começaram por comercializar depois da extinção dos ordens religiosas em 1834. A receita foi comprada por um empresário português e mantém-se na família, que a segue religiosamente tal qual os pastéis originais. Conte com fila em qualquer hora do dia, mas vale a pena a espera e não tente resistir, um pastel nunca é suficiente . .. Com açúcar em pó e canela a gosto.

Rua de Belém, 84-92, Lisboa
Aberto todos os dias
Tel. (+351) 213 637 423
www.pasteisdebelem.pt


Fábrica das Trouxas da Malveira

Basta andar meia hora de carro desde Lisboa para chegar à zona saloia, pincelada de moinhos de vento, onde se descobrem sabores resgatados do Convento de Odivelas por quatro mulheres empreendedoras no seu tempo. Foi em 1906 que o negócio arrancou noutra morada, apesar das trouxas – rolinhos de pão de ló recheados – só surgirem mais tarde numa homenagem às lavadeiras da região. Ninguém lhes resistiu e ainda hoje é difícil, pelo que se vendem às centenas todos os dias acabados de fazer. O café com fabrico próprio foi remodelado e tem um aprazível varandim.

Rua Miguel Ferreira, 40, Malveira, Mafra
Encerra sexta-feira, exceto feriados
Tel. (+351) 219 862 672
www.fabricadastrouxasdamalveira.com.pt

Cego

Vila Nogueira de Azeitão fica a meia hora de caminho desde a capital, no sopé da Arrábida, que merece o passeio. Pode-se ir pelas tortas de Azeitão, que reza a história que aqui terão nascido em 1901. Maria Albina tinha mão para os doces e fez disso vida juntamente com o marido, Manuel Rodrigues, aguadeiro, que por ser cego tornou assim conhecida a casa. Há mais de 40 anos que o negócio mudou de mãos, mas José Pinto mantém-se fiel ao fabrico artesanal. Mas há mais iguarias a provar, como os ‘esses’, os mimos, os queijinhos e os gelados, no seu tempo. Sem esquecer o Moscatel, um generoso secular que faz o cartão de visita da região vitivinícola da Península de Setúbal.


Rua José Augusto Coelho, 150, Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal
Encerra à terças-feira
Tel. (+351)  212 180 301

Casa dos Fofos de Belas

Na primeira dentada percebe-se o porquê do nome, mais fofos não podiam ser, depois sente-se o creme fresco e o açúcar torna-os ainda mais apetitosos. A receita é caseira e o que os torna ainda mais especiais é o facto de serem confeccionados em forno de lenha, tudo como antigamente. A casa aberta desde 1850 tem passado de geração em geração, guardiã da tradição, na vila do concelho de Sintra.

Rua Dr. Malheiros, 18, Belas, Sintra
Não encerra
Tel. (+351) 214 310 254

Oppidum

Desde 2016 a ginja de Óbidos tornou-se um produto certificado com Indicação Geográfica Prtegida (IGP) e com Denominação de Origem Protegida (DOP) pela União Europeia, garantindo assim que as características, a qualidade e os modos de confecção são feitos de acordo com o método e a tradição que lhes deram fama na região e protegem o uso da marca. Em Óbidos nenhuma outra bebida faz sombra a este licor feito a partir do fruto da família das cerejas, a ginja. A Oppidum é uma pequena empresa que fez da tradição familiar um negócio sem perder a sua identidade. Fica na aldeia do Sobral da Lagoa, a 4 kms de Óbidos, prolífera na produção do fruto, e recebe visitantes dando a conhecer as várias etapas da produção e culminando com a prova. Atreva-se numa ginja com chocolate.

Rua da Escola, 2, Sobral da Lagoa, Óbidos
É necessário marcação
Tel. (+351) 262 969 109
www.ginjadeobidos.com

Queijadas da Sapa

"Basílio levava na algibeira do albornoz um embrulho de queijadas da Sapa”, assim reza em Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado (1863), a obra de Camilo Castelo Branco. A referência literária faz jus há mais antiga das cinco marcas de queijadas de Sintra oficialmente reconhecidas, instalada no centro da vila desde a inauguração dos caminhos-de-ferro, em 1887. O negócio iniciou-se às portas da vila, em Ranholas, em 1756, e desde então a receita mantém-se como a original: açúcar, queijo, farinha de trigo, ovos e canela. Contém glúten, lactose e ovos e também tem o seu segredo, mas esse fica com quem o conhece. A apresentação pode ser discreta, mas não é por acaso que se vendem em embalagens de seis . ..

 

Volta do Duche 12, Sintra
Fecha à segunda-feira
Tel. (+351) 219 230 493

Moscatel de Setúbal Experience

Numa esplanada com várias zonas de estar e para comer, com bancos, cadeiras de lona e mesas num ambiente informal, encontra-se um quiosque que apostou no vinho generoso da região a Sul do Tejo. Aqui pode-se provar uma variedade de moscatel dos produtores de Setúbal, também na versão roxo. Este vinho generoso é caracterizado pelas suas especiais qualidades de aroma e sabores peculiares resultantes das castas, em particular da casta Moscatel de Setúbal, considerada das mais aromática. De cor dourada, que vai do topázio claro ao âmbar, e aroma floral exótico, insinuando a flor de laranjeira e a tília, por vezes rosas, com toques de mel, citrinos, líchias, pêras e tâmaras nos vinhos novos e aromas mais complexos e subtis com notas de frutos secos como avelãs, amêndoas e nozes, nos mais velhos. Um doce em estado líquido.

Praça do Bocage, 49, Setúbal
Não encerra

Pastelaria Faruque

Aberta desde 1976, é uma casa sem pompa e até sem um aspecto convidativo no exterior, mas não julgue o sítio pelas aparências. Com fabrico próprio, os croissants por si só justificam uma visita. Mas o que não pode deixar de experimentar é a marmelada branca de Odivelas, que aqui se produz seguindo a receita das antigas freiras Bernardas do Mosteiro de Odivelas – mesmo ao lado, que foi desde 1900 a sede da reputada instituição de educação feminina tutelada pelo Exército, encerrada em 2015. O receituário chegou aos nossos dias através do caderno da última freira falecida em 1909, entretanto publicado em livro. A iguaria distingue-se da marmelada tradicional pela sua cor quase branca e que se come em pequenos quadrados como se fosse um bolo.


Rua Guilherme Gomes Fernandes, 87A , Odivelas
Encerra à segunda-feira
Tel. (+351) 219 311 574 

Solar do Vinho do Porto

O Palácio de Ludovice, do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), do século XVIII, em pleno Bairro Alto, no coração de Lisboa, guarda uma colecção ímpar de vinhos do Porto. O espaço, elegante e intimista com uma rica colecção de azulejos iluminação teatral, convida a dois dedos de conversa enquanto se provam alguns dos melhores néctares que levam o nome de Portugal além fronteiras. A experiência enológica está à altura dos curiosos e dos verdadeiros apreciadores do vinho licoroso produzido na Região Demarcada do Douro de diferentes estilos – ruby, tawny, branco, rosé – e colheitas – LBV (Late Bottled Vintage), vintage (anos de excepcional qualidade). São mais de 300 as referências à escolha para provar e tem um catálogo para venda.

Rua S. Pedro de Alcântara, 45
Encerra ao domingo
Tel. (+351) 213 475 707

Bistrô4

Imagine um oásis urbano, à sombra de oliveiras e limoeiros, e a partir daí uma viagem à mesa entre Paris-Lisboa-Funchal . .. É pelos sabores que vamos : da cidade-luz a massa choux, da capital portuguesa o creme do pastel nata e da cidade atlântica o tradicional bolo de mel. O chef João Espírito Santo garante a qualidade da carta com assinatura do Chefe Benoît Sinthon, duas estrelas Michelin, no restaurante Il Gallo d’Oro, no Funchal. A harmonização é perfeita quer com um vinho do Porto, um Madeira, uma ginja ou um moscatel.

Rua Rosa Araújo, 8, Lisboa
Não encerra
Tel. (+351) 210 015 700
www.bistro4restaurant.com

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